Reflexões sobre crise, consumo e sustentabilidade

Rodrigo Martins

03 Dezembro 2008 | 04h20

Fim de ano chegando, e os apelos do comércio começam a pipocar em milhões de luzes coloridas e enfeites de Natal. Em meio aos já presentes efeitos da crise financeira, essa temporada de compras vai ter lá suas particularidades.

Os presidentes, daqui e de acolá, mandam o povo gastar. Comprem, se endividem ao menos um pouquinho, já que o consumo é o motor da economia. De fato, no atual modelo de produção e consumo – seguido de descarte dos bens já não tão desejados – a freada nos gastos pode ser a pá de cal nos negócios de empresas que, durante décadas, reinaram soberanas. A indústria automobilística americana que o diga: lá estão elas, GM, Ford e Chrysler de chapéu na mão, implorando pelo dinheiro do contribuinte.

Obviamente que o consumo tem seu lado positivo. Gera divisas, arrecada impostos, mantém empregos, sustenta famílias, diverte. Mas foi preciso uma crise financeira dessas dimensões para mostrar que o lado patológico do consumo, o consumismo, traz danos irreversíveis para a conta bancária das pessoas e para o meio ambiente. Como já foi dito aqui. Um dia, um atendente da área de computadores de uma grande rede me contou que há pessoas que compram um computador novo quando descobrem que chegou uma nova versão, com pouco um pouco mais de memória (não seria caso só para um upgrade?). Ou trocam o notebook do filho de dez anos a cada dois meses (as crianças andam precisando assim de notebooks tão modernos?)

Na crise, segunda mão vai bem
Como boa parte das mulheres, também adoro ir às compras. Difícil resistir à tentação de um sapatinho novo, um perfume… Mas para desgosto da indústria a minha televisão está comigo desde os 15 anos – estou com 33 – e adoro coisas de segunda mão, de móveis a vestuário. Reformo, envernizo, costuro, e no final dá tudo certo. E em tempos de crise mundo afora, descobri que a economia “second hand”, vai bem, obrigada.


Nos EUA, a National Association of Resale and Thrift Stores (a associação que reúne os lojistas de coisas usadas) afirma que 85% dos associados já registram aumento no número de clientes – e muitos deles chegam pela primeira vez. O aumento nas vendas, comparado ao mesmo período do ano passado, supera 35%. Além da falta de dinheiro e crédito, a economia de segunda mão também é ecofriendly, pois poupa recursos naturais e energia.

Na Europa, a febre do momento são as swap communities – comunidades de troca pela internet, que funcionam como redes sociais, como a Swapstyle. As pessoas se cadastram, se comunicam e fazem negócios, a maior parte na base do escambo. E o Brasil não está de fora: há uma infinidade de bazares e brechós online, para alegria de compradores e vendedores.

Crises – econômicas, ambientais, de valores – servem, afinal, para nos ensinar que desperdícios, de qualquer espécie, estão cada vez mais fora de questão – e de moda.