Rastreamento pode ir além da pecuária

Rodrigo Martins

23 Julho 2009 | 19h21

Os recentes acontecimentos envolvendo a cadeia de produção da carne, como o embargo das redes de varejo aos produtos vindos de áreas de desmatamento, colocaram o tema do rastreamento de alimentos na ordem do dia. Agora, a nova tendência que surge é de que os sistemas de verificação de origem sejam ampliados para outras cadeias produtivas, como de frutas, legumes, pescados e frutos do mar. A adoção de sistemas de rastreabilidade pode ser uma ferramenta para aumentar os ganhos de pequenos produtores e estimular iniciativas de comércio justo.

É o que aponta “O Livro Verde de Rastreamento”, obra de autoria do engenheiro Thomas Eckschmidt, lançada este mês pela Varela Editora. Eckschmidt é sócio da Pari Passu Aplicativos, empresa que desenvolveu um software de rastreamento voltado especialmente para pequenos produtores e cooperativas agrícolas.

Ex-executivo da área de finanças, Eckschmidt passou 15 anos viajando por mais de 20 países, ajudando empresas a fazerem gestão de fluxo de caixa. Viu o impacto que embargos comerciais causados por eventos como a doença da vaca louca, no início da década, causaram nos negócios de pequenos produtores rurais. “Muitos quebraram porque não tinham acesso a informações sobre novas barreiras comerciais e sanitárias, em um mercado que já vinha se globalizando”, diz.

Hoje, segundo Eckschmidt, as demandas sobre os produtores de alimentos estão crescendo. “Além de qualidade e segurança, os produtores estão sendo questionados sobre os aspectos socioambientais da produção: se envolveu trabalho infantil ou escravo, ou danos ao ambiente.” O desafio é convencer os produtores de que o investimento em rastreabilidade pode trazer ganhos de mercado.

“O consumidor brasileiro ainda não exige essa informação, como o europeu. Mas a velocidade com que as notícias circulam nas redes sociais já faz com que um novo perfil de consumidor, mais consciente, seja moldado.”

Grandes redes varejistas já estão apostando na tendência. É o caso do Pão de Açúcar, que investiu R$ 3 milhões na rastreabilidade dos fornecedores de hortifrúti. O Wal-Mart concentrou esforços na rastreabilidade da cadeia da carne e manteve o embargo aos frigoríficos do Pará. “Só vamos comprar carne da região quando os frigoríficos apresentarem um sistema de rastreamento que seja confiável”, diz Daniela de Fiori, gerente de sustentabilidade do Wal-Mart.

Novas regras
O BNDES anunciou ontem novas exigências para dar crédito aos frigoríficos. Entre elas, a adesão de medidas de rastreabilidade para toda a cadeia de fornecedores até 2016 – prazo que foi considerado extenso demais pelos ambientalistas, uma vez que frigoríficos, como o Marfrig, admitem que em um prazo de dois anos é possível impor rastreabilidade junto à cadeia. As críticas, no entanto, não tiram o mérito da iniciativa do BNDES, que possui um papel fundamental na construção de uma cadeia mais sustentável da pecuária. A notícia completa pode ser lida aqui.


Thomas Eckschmidt, que criou sistema de rastreabilidade para pequenos produtores. Foto de Valeria Gonzalez/AE