Pegada florestal. Você vai ouvir falar dela

Rodrigo Martins

22 Junho 2009 | 20h03


Plantação de soja, em foto de Dida Sampaio/AE

Depois da pegada ecológica (ecological footprint) e da pegada do carbono (carbon footprint), tudo indica que vamos começar a ouvir falar muito da pegada florestal (forest footprint). O impacto das cadeias produtivas sobre os recursos florestais que ainda restam no mundo caminha para ser o grande tema das discussões sobre sustentabilidade empresarial nos próximos anos.

Se alguém duvida disso, basta ver o exemplo do setor de pecuária no Brasil, que abordamos por aqui. A celeuma causada pelo relatório do Greenpeace está levando muitas empresas a reverem seus negócios, para salvaguardar sua própria reputação. Primeiro foram as grandes cadeias de supermercados. Esta semana, frigoríficos como Marfrig e Bertin já assumiram publicamente o compromisso de não comprar carne de fazendas localizadas em áreas de desmatamento na Amazônia.

E para corroborar a tendência, foi lançado na semana passada o Forest Footprint Disclosure Project – algo como Projeto de Transparência da Pegada Florestal, em tradução livre. O projeto pretende ser uma ampla tentativa de mapear a relação entre o comércio de commodities no mundo e a perda da biodiversidade. Para isso, 150 das maiores multinacionais globais serão convidadas a abrir dados sobre suas cadeias produtivas e a origem de suas matérias-primas.

O modelo é o mesmo seguido pelo Carbon Disclosure Project, que reúne informações sobre as emissões de gases estufa de grandes grupos em todo o mundo. Essas informações são acompanhadas de perto por entidades financeiras e investidores institucionais, como fundos de pensão, que podem usá-las como ferramenta de análise de riscos.

Os primeiros resultados do Forest Footprint estão previstos para o início de 2010. Mas uma prévia do que os resultados devem mostrar já estão disponíveis no documento inicial do projeto,

Documento

. O estudo prévio demonstra que seis commodities globais – soja, carne bovina, couro, madeira, biocombustíveis e óleo de palma – estão impulsionando a destruição das florestas em todo o planeta, uma história que, infelizmente, conhecemos bem.

Alguns argumentos
E antes que os adeptos do crescimento a qualquer custo se revoltem contra a proposta, é bom lembrar que antes que um obstáculo ao desenvolvimento de nossa economia (grande exportadora de boa parte das commodities acima mencionadas), a manutenção das florestas em pé será essencial para o próprio sistema econômico nos próximos anos. Isso porque:

– Os chamados serviços ambientais providos pelos ecossistemas selvagens (regulação do clima e das temperaturas, produção de água, polinização) são essenciais para a segurança alimentar e energética do mundo;

– No Brasil, os setores de soja, energia hidrelétrica e biocombustíveis se beneficiam diretamente das cerca de 20 bilhões de toneladas de água que evaporam da Amazônia diariamente;

– Estancar a sangria do desmatamento poderia prover para a economia global entre US$ 2 trilhões e US$ 5 trilhões por ano em serviços ambientais;

– Os setores da economia mais vulneráveis são justamente aqueles que contam com a disponibilidade de recursos naturais e com ecossistemas saudáveis, como o agronegócio, os biocombustíveis, a indústria de alimentos e bebidas. A perda antecipada dos serviços ambientais afetará o retorno financeiro de todos esses setores. Sem contar o turismo.

– A vigilância dos consumidores sobre o uso de matérias-primas produzidas de forma não sustentável é uma ameça à reputação de marcas globais.

Alguém ainda acha que dá para prescindir da natureza?