Os pecados da 'moda rápida'

Rodrigo Martins

17 Junho 2008 | 21h42

Na última década, a indústria de roupas vem passando por um movimento conhecido como ‘fast fashion’ – a moda rápida, uma alusão à ‘fast food’, comida rápida . Nesse sistema, abraçado por grandes varejistas do mundo todo, o espaço entre desenho, produção e comercialização é curtíssimo e mercadoria nova chega às lojas todas as semanas, a preços acessíveis.

Redes como Zara, H&M, C&A adotam o modelo, que tem na terceirização da cadeia produtiva seu maior trunfo em termos de redução de custos.

E boa parte das peças são feitas em países como China, Índia, Bangladesh, Paquistão. E feitas sabe-se lá em que condições.

Recentemente o canal inglês BBC foi à Índia e flagrou condições de trabalho degradantes em oficinas de costura que usavam crianças para pregar botões e fazer bainhas. O mesmo problema provocou uma brutal queda no preço das ações da Nike, nos anos 1990. Ontem a rede européia de fast fashion Primark, denunciada pela BBC, anunciou que vai cortar relações com esses fornecedores indianos que usam mão-de-obra infantil. Um deles era fornecedor da rede desde 1996. Leia mais aqui: http://www.guardian.co.uk/business/2008/jun/16/primark.child.labour

A Primark é uma espécie de paraíso do consumo onde se compram roupas bonitinhas a preços realmente muito baixos. Camisetas custam na faixa de duas libras (cerca de R$ 8) e sapatos na faixa de 8 libras (cerca de R$ 32). Já se desconfiava que os baixos preços deveriam esconder relações de trabalho esgarçadas.

E não é preciso ir tão longe para se detectar essas práticas. Oficinas de costura clandestinas usam e abusam de mão-de-obra semi-escrava de imigrantes bolivianos em São Paulo. Muitas das empresas de confecção que contratam esses trabalhadores fornecem para grandes e conhecidas redes de moda barata, que já tiveram que se entender com o Ministério Público.

E não é só a indústria da moda. A pecuária bovina aparece como o setor que mais utiliza mão-de-obra escrava, nos rincões desse País. A roupa do dia-a-dia ou o bife que chega ao prato podem vir impregnados de mazelas sociais.