Os bancos 'sustentáveis' na berlinda

Rodrigo Martins

18 Fevereiro 2009 | 20h06

Verdade seja dita. Os bancos nunca gozaram de boa imagem e reputação no imaginário da população. E num País onde a taxa de juros beira a agiotagem, os lucros dos bancos sempre soaram descabidos – embora “dentro da legalidade”, como bem frisa o setor.

Os bancos também nunca se mostraram muito ‘pró-ativos’ (palavrinha da moda) quando o assunto é direito do consumidor. Até bem pouco tempo atrás, sequer respondiam ao Código de Defesa do Consumidor. A cobrança de tarifas era uma festa da uva, até que o Banco Central passou a estipular o pacote de serviços essenciais, que devem ser oferecidos gratuitamente.

E hoje o spread – diferença entre o custo de captação das instituições e a taxa que é aplicada ao cliente – virou motivo para uma briga ferrenha entre indústria e bancos, como mostrou o noticiário da semana.

Como se não bastasse, veio a crise. Uma crise que nasceu no âmago do capitalismo e se alastrou feito a peste negra por toda a economia mundial. Culpa dos bancos, da irresponsabilidade regulatória e da ausência da “mão invisível” do mercado, como quis Adam Smith.

Discurso
Sustentabilidade, que evoca a noção de perenidade, vem permeando o discurso das instituições bancários há pelo menos uma década. Iniciativas interessantes e bem-vindas, realmente estratégicas, começaram a aparecer. Fundos de investimentos éticos, os Princípios do Equador (que estipulam uma análise de rating socioambiental para grandes projetos), microcrédito produtivo e produtos financeiros atreladas a ONGs vinham crescendo e coroando, na prática o conceito de “finanças sustentáveis”. Pouco, é verdade, mas vinha acontecendo.

Com a crise, muda a perspectiva, afinal. “A estratégia agora é sobreviver”, me disse ontem Jodie Thorpe, que trabalha na consultoria britânica SustainAbility, uma das precursoras da aplicação do conceito triple bottom line nos negócios – no Brasil a convite justamente de um banco, o Itaú, que entregou seu primeiro prêmio de Finanças Sustentáveis, uma iniciativa para estimular mídia e academia a produzir conteúdo sobre o tema.

A bem da verdade, sustentabilidade sempre foi uma poderosa ferramenta de marketing para as empresas, e os bancos já deitaram e rolaram nisso. Um investimento fundamental para tentar apaziguar a imagem junto à opinião pública. “Agora, como ninguém sabe a duração da crise, as reais iniciativas dos bancos em direção à sustentabilidade, como o crédito ‘verde’ e o microcrédito ficaram nebulosas” , diz Jodie. Ela diz isso com propriedade. A SustainAbility assessora grandes bancos como o HSBC e o Rabobank, entre tantos outros.

Corre-se agora o risco de que as tão propaladas iniciativas de sustentabilidade dos bancos fiquem reduzidas a meras ações de filantropia pontual (travestida de comportamento sustentável) ou produtos financeiros de alta rentabilidade e pouca eficácia socioambiental.

Ou não? Nossos bancos, tão hábeis em reportar aos jornalistas seus programas nessa seara, ainda não vieram nos dizer o oposto.