O PIB fora de moda

Rodrigo Martins

15 Julho 2008 | 20h22

O Produto Interno Bruto – PIB – a soma de todas as riquezas produzidas em uma região – pode estar com os dias contados. Com a desaceleração da economia mundial, as críticas a essa métrica ganham espaço – e um dos expoentes é o presidente francês Nicolas Sarkozy. Recentemente, ele encomendou a um grupo de 25 renomados economistas, entre eles os Prêmios Nobel de Economia Joseph Stiglitz (2001) e Amartya Sen (1998) a revisão do indicador.

A idéia é revisar o indicador e elaborar um ‘PIB’ que vá além: que não só some os frutos da atividade econômica, mas que leve em consideração melhores condições de vida para a população e o desenvolvimento sem exaurir os recursos naturais. O relatório final da empreitada é esperado para junho de 2009.

Um ensaio desse novo PIB já foi feita pela New Economics Foundation, que criou o HPI – o Happy Planet Index – que mede a “eficiência relativa com que as nações transformam os recursos naturais da Terra em vidas longas e felizes para seus cidadãos” . Tenta mostrar se na prática a riqueza gerada está sendo bem-distribuída e trazendo mais felicidade para o dia-a-dia das pessoas.

A economista Hazel Henderson levantou críticas ao modelo do PIB há pelo menos vinte anos. Segundo ela, o critério da riqueza per capita disfarça as desigualdades vigentes – pois a métrica do PIB apenas soma o resultado da atividade econômica, sem levar em conta as chamadas externalidades – ou o custo social e ambiental da produção dessa riqueza.

Um exemplo: sob o ponto de vista do crescimento do PIB, um terremoto é positivo: a reconstrução da região afetada vai movimentar a economia, gerar emprego, etc. Uma mineradora pode contribuir enormemente para o PIB extraindo seu minério, não importa se vai deixar um rastro de poluição que pode condenar para sempre uma região e as pessoas que ali vivem.

Ao mesmo tempo, apesar do crescimento do PIB das nações – hoje estimado em US$ 50 trilhões – as desigualdades econômicas se mantém: de cada US$ 160 produzidos no mundo, só US$ 0,60 chegam efetivamente aos mais pobres. E o argumento de que o crescimento econômico é a solução já não basta: não há recursos naturais para comportar crescimento constante. Em poucas décadas do atual modelo de produção e consumo a humanidade já exauriu 60% da água disponível e dizimou um terço das espécies vivas do planeta.

Malthus vive
A crise mundial dos alimentos está jogando mais lenha nessa fogueira e ressuscitando a velha teoria do economista inglês Thomas Malthus, que dizia que à medida que a população cresce em progressão geométrica, a produção de alimentos cresceria em progressão aritmética. Apesar do progresso tecnológico, que permitiu aumentar a produtividade agrícola, a cada dia 200 mil pessoas vêm ao mundo. Em 2050, poderemos ser 12 bilhões, à beira de um possível colapso que o atual modelo econômico, ao menos por enquanto, não dá conta de resolver.