O inferno astral da pecuária

Rodrigo Martins

17 Junho 2009 | 20h18

É o Assunto da semana. Os produtores de carne estão vivendo um verdadeiro inferno astral, que começou com a publicação do relatório A Farra do Boi na Amazônia, divulgado pelo Greenpeace há duas semanas. Nele, a ONG lista as empresas que, por meio de sua cadeia de fornecedores, contribuem de forma direta para o desmatamento da Amazônia. São citados nominalmente de grandes frigoríficos, como JBS Friboi, Marfrig e Bertin, cadeias de supermercado como Wal-Mart e Carrefour, a marcas de renome como Adidas, Nike e Gucci, que também utilizariam como matéria-prima o couro do boi do desmatamento.

A história não é exatamente novidade. Depois da soja, a pecuária extensiva tem sido apontada por entidades sociais e ambientalistas como o grande vetor de desmate e do trabalho escravo nos rincões da Amazônia. Só que agora a situação ganhou novos contornos e desencadeou uma série de acontencimentos.

O estudo do Greenpeace chamou a atenção do Ministério Público Federal do Pará, que começou a investigar essa cadeia. Por recomendação do MPF, as três maiores redes de supermercados que operam no País – Pão de Açúcar, Carrefour e Wal-Mart – e a Abras, entidade que representa o setor, anunciaram um boicote à carne produzida no Pará.

Na esteira, o IFC, braço de financiamentos à iniciativa privada do Banco Mundial, rescindiu esta semana o contrato com o frigorífico Bertin. O grupo deixou de receber uma parcela de US$ 30 milhões de um financiamento e terá de devolver outros US$ 60 milhões de um contrato firmado em 2007.

No meio desse turbilhão, a Abiec, entidade que representa os exportadores de carne, esperneou. Ameaçou processar o Greenpeace, alegando que o relatório não diferencia os bons criadores, que usam práticas modernas de pecuária, dos matadouros de fundo de quintal. O presidente da entidade, Roberto Giannetti da Fonseca, em parte tem razão. Há o boi criado com rastreabilidade e tecnologia. Mas o que está sob os holofotes é a pecuária que invade terras, desmata e ainda escraviza pessoas.

Lentidão
Só que o setor de carnes, tão atento a exigências sanitárias, demorou muito a considerar que a sustentabilidade da produção pode abrir mercados, e que a falta dela pode fechar portas – as chamadas barreiras não tarifárias. As indústrias de soja e de cana-de-açúcar foram muito mais espertas e hoje investem em certificações socioambientais para separar o joio do trigo. O próprio varejo, temeroso de ficar com a imagem chamuscada perante consumidores e acionistas, tratou de limpar sua barra rapidamente.

Fica mais uma lição para os líderes do agronegócio. (Por falar nisso, por que o ministro Reinhold Stephanes não se pronunciou ainda sobre o assunto? Alguém sabe?). Os tempos mudaram, ou estão em processo de mudança, e não dá mais para considerar sustentabilidade como um modismo ou perfumaria. Os frigoríficos já estão sentindo no bolso.