O castigo da Petrobrás

Rodrigo Martins

27 Novembro 2008 | 19h01

O descaso com a questão da redução do nível de enxofre do diesel produzido no Brasil tirou a Petrobrás do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), carteira da Bovespa que reúne ações de empresas com bom desempenho econômico e em questões socioambientais. O índice existe desde 2005 e é revisado anualmente. Este ano, entraram Celesc, Duratex, Odontoprev, TIM, Oi e Unibanco. E saíram Petrobrás, Aracruz, CCR Rodovias, Copel, Iochpe-Maxion e WEG.

A decisão de retirar a Petrobrás da carteira de ações foi tomada pelo Conselho do ISE, formado por nove entidades. Oito delas votaram favoráveis à exclusão – só o Ministério do Meio Ambiente se absteve de votar, uma vez que o governo é acionista majoritário da Petrobrás. E embora os motivos que levam à exclusão de uma companhia da carteira sejam mantidos em sigilo, a grande celeuma em torno do diesel é tida como razão mais do que evidente para a exclusão.

A companhia descumpriu a resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama, de 2002, que estabelecia que os níveis de enxofre no diesel deveriam ser reduzidos a partir de janeiro de 2009 para 50 partes por milhão (ppm) – mesmo padrão europeu. Hoje as regiões metropolitanas recebem o óleo com 500 ppm, e o resto do País, com 2 mil ppm.

Mês passado, a empresa fechou um acordo com o Ministério Público Federal para entregar o diesel menos poluente no ano que vem somente para ônibus novos, nas capitais. O combustível usado no interior será trocado por um com 1,8 mil ppm e depois substituído por um de 500 ppm até 2014.

Só que o arranjo foi considerado insatisfatório por ONGs e autoridades governamentais, como a Secretaria do Verde de São Paulo, que enviaram uma carta à Bovespa pedindo a revisão da presença da Petrobrás na carteria.

Antes disso, e pelos mesmos motivos, a Petrobrás teve que retirar do ar as propagandas em que alardeava sua “responsabilidade socioambiental” – o Conar, órgão de auto-regulação publicitária, entendeu se tratar de um caso de propaganda enganosa, ou “greenwashing”. Ou seja, vendia uma imagem de empresa comprometida com o meio ambiente, e ao mesmo tempo não se preparou para produzir um combustível mais limpo.

Reputação

E o que a empresa perde com sua exclusão da carteira de sustentabilidade da Bovespa? A princípio, a maior perda é relacionada a imagem e reputação. A Petrobrás perde a chance de atrair a atenção dos chamados investidores ‘socialmente responsáveis’, uma indústria que já chegou a movimentar US$ 2,3 trilhões – sofreu perdas, com a crise nas bolsas, mas é bastante forte nos EUA e Europa.

São investidores, como fundos de pensão, que balizam suas aplicações em bolsa de acordo pelo crivo da responsabilidade socioambiental das empresas. Ou seja, só colocam dinheiro em companhias mais comprometidas com essas questões. É para isso que servem os índices de sustentabilidade das bolsas, como o ISE da Bovespa, o Dow Jones Sustainability Index, da bolsa de Nova York, e o FTSE4good, da bolsa de Londres.

Agora, com problemas de caixa decorrentes da escassez de crédito – visto o empréstimo de R$ 2 bi feito pela Caixa – a Petrobrás corre o risco de perder credibilidade e afugentar possíveis investidores, especialmente no mercado internacional.

Por outro lado, a companhia ainda mantém presença no índice de sustentabilidade do Dow Jones. Bem como a Aracruz Celulose, excluída do ISE mas ainda parte da carteria do índice de sustentabilidade americano.