O carro será o novo cigarro?

Rodrigo Martins

13 Junho 2008 | 20h54

Congestionamento em Sampa, às 9 da manhã. Foto de Nilton Fukuda/AE

Pode soar estranho, mas as preocupações com o aquecimento global e também com a escalada do preço do petróleo – o barril está prestes a custar US$ 140 – está colocando os automóveis na berlinda nos países ricos.

A União Européia até estuda restringir a publicidade dos veículos a gasolina, como foi feito com a propaganda de cigarro, bebidas e comida gorda. O ponto central da proposta é exigir que, em todos os anúncios, sejam mostrados o consumo de gasolina e o volume de emissões de CO2 por quilômetro rodado. Referências à rapidez do carro ou ao “prazer de dirigir” seriam vetadas. A idéia enfrenta resistências e há dúvidas quanto a sua eficácia, mas o projeto está em discussão.

A consultoria Ernst&Young realizou um estudo que mostra os dez maiores riscos aos negócios na atualidade. Um deles, que a pesquisa chama de ‘radical greening’ (algo como radicais verdes) é o ‘perigo’ do consumidor engajado e disposto a mudar seus hábitos de consumo por alternativas mais ecológicas – e empresas de setores como o automobilístico estariam na mira.

“Há 30 anos, ninguém iria imaginar que o hábito de fumar seria tão combatido. Já existe um temor entre os estrategistas na indústria automobilística de que o carro se torne o novo cigarro”, disse Joel Bastos, diretor de sustentabilidade da Ernst&Young no Brasil.

A corrida por carros menos poluentes e que funcionem a combustíveis mais limpos como hidrogênio já está acontecendo, mas não com a rapidez desejada. A alegação da indústria é de que ainda não há escala de produção para que esses carros se tornem acessíveis à população.

Mas mesmo gigantes como Ford e GM estão revendo suas estratégias. A GM já não sabe o que fazer com sua marca Hummer (fabricante dos jipes de inspiração militar, enormes e beberrões, que os americanos adoram). A Ford anunciou nos EUA que vai reduzir a produção de utilitários e picapes para se concentrar na fabricação de carros menores e mais econômicos.

Nas bandas de cá, haja carro para pouca rua. Enquanto a indústria automobilística comemora recorde atrás de recorde – a projeção é fechar 2008 com 3,42 milhões de carros vendidos – já se discute, entre ONGs e entidades de classe, se já não seria hora de “sugerir” às montadoras que parte do seu lucro seja revertido para ajudar a melhorar o transporte público nas metrópoles. Será que elas se habilitam, em nome da ‘responsabilidade social’?