Mudança climática, a praga do diesel e o leilão de carbono

Rodrigo Martins

28 Agosto 2008 | 20h01

Deu no New York Times: pela primeira vez na história americana, uma empresa de energia terá que informar sobre os riscos financeiros que as mudanças climáticas trarão para seus investidores.

A empresa em questão, a Xcel Energy of Minneapolis, fechou um acordo com a procuradoria geral do estado de Nova York para passar a prestar essas informações – isso porque a companhia, considerada uma das mais ‘sujas’ dos EUA, tem feito investimentos pesados em geração de energia a carvão, na contramão da corrida pelas energias mais limpas.

Segundo experts, o acordo é inovador e pode abrir uma nova frente nos esforços para pressionar a indústria de energia a reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Pelo documento, a empresa terá que detalhar qual o tamanho das perdas financeiras que o fato de gerar energia a partir de fontes poluentes trará para seus acionistas, como o risco de processos judiciais. Com o agravamento das mudanças climáticas, os grandes poluidores podem passar a ser responsabilizados, em um futuro não tão distante.

Diesel mais limpo, só no corredor de ônibus

Por aqui, a má notícia é que pouco se avançou na novela do diesel poluente. Mesmo com a pressão das ONGs, a reunião realizada esta semana em Brasília para tratar do assunto chegou a seguinte conclusão: somente os ônibus que circulam pelos corredores exclusivos de São Paulo e Rio vão operar com o diesel que emite 50 partículas de enxofre por milhão (S-50) a partir de janeiro do ano que vem.

Segundo resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), a redução do poluente, com potencial cancerígeno, deveria ser válida para todos os veículos que rodam no País. Detalhe: a lei é de 2002.

O arranjo é uma das formas de compensação que a Petrobrás e as montadoras ofereceram ao Ministério Público Federal e aos setores civil e ambiental por não cumprirem a resolução. Como a Petrobrás não produz o diesel menos poluente, a solução será importar o combustível.

O diesel fabricado e distribuído no Brasil é considerado um dos mais venenosos do mundo, pois emite até 2 mil partículas de enxofre por milhão. Na Europa, o combustível não pode emitir mais que 15 ppm.

Só ônibus que rodam nos corredores terão diesel com menos enxofre. Foto: Hélvio Romero/AE

Carbono, a nova commodity

A boa notícia é que São Paulo já marcou a data para o segundo leilão de créditos de carbono na Bolsa de Valores: 25 de setembro. Desta vez, serão negociados créditos referentes a 713 mil toneladas de carbono de dois aterros sanitários, Bandeirantes e São João, na capital.

O gás metano emitido pelo lixo em decomposição nos aterros foi canalizado e hoje produz energia elétrica, deixando de ser lançado no ar – o que abriu a possibilidade de negociação dos títulos, dentro do acordo de Kyoto.

No ano passado, a prefeitura fez a venda da primeira leva de títulos, arrematados pelo banco holandês Fortis Bank NV/SA, o que rendeu R$ 35 milhões. A tonelada de carbono foi arrematada a 16 euros. Este ano, com o preço do carbono estimado em torno de 19 euros a tonelada, a expectativa é arrecadar mais de R$ 40 milhões.