Contra o aquecimento global, planejamento familiar

Rodrigo Martins

01 Junho 2010 | 17h43

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Desde que o aquecimento global se tornou comprovadamente um fenômeno agravado pela ação humana, não faltam mecanismos e ferramentas para ‘compensar’, ‘mitigar’ ou ‘neutralizar’ nossa contribuição às mudanças climáticas. Do mercado de créditos de carbono preconizado pelo Protocolo de Kyoto, onde países ricos podem comprar títulos de emissão de CO2 reduzida dos países em desenvolvimento, até a febre das ‘neutralizações de carbono’ – espécie de autoindulgência de empresas, eventos e até pessoas físicas, que pagam para plantar árvores para reduzir a pegada ecológica de suas empreitadas.

Mas o que propõe a Optimum Population Trust, organização filantrópica britânica, é uma compensação de carbono não por meio do plantio de árvores, mas pelo incentivo ao controle da natalidade e educação sexual junto a populações menos favorecidas. O argumento é racional – afinal, com menos gente no mundo, é possível rumar em direção ao que a OPT chama de ‘população sustentável’ – que, grosso modo, não deveria passar de 5,1 bilhões de habitantes.

A entidade lançou a já controversa ferramenta PopOffset, onde o cidadão pode compensar suas emissões de carbono ao ajudar a população mundial a crescer em níveis mais moderados. Com uma calculadora online, você pode fazer o cálculo do quanto quer reduzir suas emissões de gases estufa e reverter sua pegada ecológica em recursos para projetos de planejamento familiar que a OPT apoia em países em desenvolvimento. No site, qualquer pessoa pode calcular quanto deve pagar para compensar suas emissões – a reportagem da revista Página 22, especializada em sustentabilidade, fez uma simulação, que pode ser lida aqui.

O principal argumento do PopOffset é que a população do mundo não pode continuar crescendo indiscriminadamente. Além das limitações físicas e dos ecossistemas – mais gente, mais pressão sobre os recursos naturais para que as pessoas comam, se desloquem, trabalhem – existe a questão de que há pelo menos 200 milhões de mulheres em idade fértil em todo o mundo que não querem engravidar, mas ao mesmo tempo não têm acesso a métodos contraceptivos eficientes, segundo a OPT.

De toda forma, a ferramenta é polêmica e tem todo potencial para atrair a ira de entidades religiosas e de quem discorda de que a população do mundo precisa ser controlada. E mais: os críticos da ferramenta dizem que a questão não é o número de pessoas no mundo que impacta o equilíbrio do Planeta, e sim o grau de consumo de seus
habitantes. Um americano tem impacto muito maior do que um africano ou morador de Bangladesh. Esse argumento, no entanto, se desmontaria a longo prazo, pois à medida que um país enriquece, seus habitantes tendem a copiar o modelo de consumo dos países ocidentais.

A pergunta que fica é: se não se pode interferir no direito das famílias à natalidade, como supor que realmente a Terra tem condições de prover as necessidades de 9,5 bilhões de habitantes, a população estimada para 2050? Eu tendo a acreditar que é necessário ter menos gente na casa para que todos possam viver em condições dignas, bem alimentados, com educação de qualidade e uma vida razoavelmente confortável.

Ou não? Qual é sua opinião?