Carne 'do desmatamento' ainda está à venda nos supermercados

Rodrigo Martins

06 Julho 2009 | 20h31

Após as grandes redes de supermercados terem anunciado um compromisso de não comprar mais carne bovina proveniente de áreas de desmatamento da Amazônia, ainda é possível encontrar, no varejo, peças de carne cuja origem pode estar em fazendas que cometeram crimes ambientais, segundo a lista elaborada pelo Ministério Público Federal do Pará.

A reportagem do Estado comprou, em uma loja da rede Wal-Mart em São Paulo, uma peça de carne cujo número do Sistema de Inspeção Federal (SIF), 457, é referente à unidade do frigorífico Bertin em Marabá (PA). O Bertin foi indiciado pelo MPF por comprar carne de fazendas da região, uma das campeãs do desmatamento ilegal. “A região de Marabá concentra a maior parte das fazendas que estão em situação ilegal”, diz Alan Rogério Mansur Silva, procurador da República no Pará. Na sexta-feira, o MPF passou o dia reunido com o Bertin, em Belém, negociando um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC).

O Wal-Mart, que anunciou na semana passada um acordo para não comercializar mais carne oriunda de áreas de desmatamento da Amazônia, afirma que desde o dia 12/06 suspendeu as compras de toda a carne proveniente do estado do Pará – mas reconhece que ainda tem o produto em estoque. “É provável que ainda tenhamos resíduos de carne em algumas lojas ou depósitos, que foram compradas anteriormente ao acordo”, explica Daniela de Fiori, gerente de sustentabilidade do Wal-Mart Brasil.

Ela afirma que o grupo varejista exigiu do Bertin e de outros fornecedores de carne que apresentem um plano de auditoria de origem realizado por uma entidade independente, que deverá ser apresentado até dia o 15.

Precinho camarada
Segundo fontes, o frigorífico Bertin, que enfrenta o embargo das principais redes de supermercados do País, estaria oferecendo seus estoques de carne oriunda do Pará aos varejistas com descontos. “Na semana passada, uma equipe do Bertin ofereceu um lote de carne produzida no Pará cerca de 10% mais barato do que a média”, conta uma fonte ligada a uma grande rede do varejo, que pediu sigilo. “Diante da recusa, eles disseram que a carne estaria, no dia seguinte, em promoção na concorrência”, completou. Outra fonte afirmou que o frigorífico está desovando seus estoques em pequenos e médios supermercados e também em atacadistas, menos preocupados com a questão do desmatamento. “Eles estão sob uma enorme pressão para se livrar dessa carne e se sentem injustiçados com o embargo”, disse.

Em nota, o frigorífico Bertin afirmou que decidiu paralisar, desde o dia 6 de junho todas as aquisições de bovinos das fazendas apontadas pelo MPF. Das 21 propriedades no Pará, 14 eram fornecedores do Bertin, que possui 2.500 fornecedores só no Pará. “A companhia consulta diariamente a lista de áreas embargadas do Ibama e exclui os fornecedores que estiverem nessas listas”, diz a nota.

A empresa também nega que esteja oferecendo a carne do Pará com desconto para os supermercados. “Apesar de estar operando com capacidade de abate reduzida em 30%, a Bertin mantém suas operações no Pará com gado comprado de fornecedores em legalidade com práticas ambientais e comercializa seus produtos de acordo com o interesse dos clientes. Como a carne é uma commodity, é normal o seu preço variar de acordo com a região proveniente e a data de comercialização. Dessa forma, o questionamento feito pelo jornal O Estado de S.Paulo em relação ao preço dessas carnes não tem fundamento nas práticas do mercado.”

Dilema ético
Daniela, do Wal-Mart, nega que a carne do Pará comprada pela reportagem em uma de suas lojas tenha sido adquirida recentemente. “É impossível que isso tenha acontecido, pois toda a área comercial está atenta”, diz. Ela admite, no entanto, que manter o produto nas prateleiras é um risco para a imagem ‘verde’ que a rede tem procurado passar. Na semana passada, o grupo varejista anunciou um pacto para monitorar sua cadeia produtiva em um grande evento que mobilizou 18 grandes fornecedores e teve a presença do ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc.

“Cogitamos retirar essa carne das lojas, mas isso seria complicado em termos de logística e de custos, pois são mais de 350 pontos de venda. O mais importante agora é pressionar a cadeia produtiva daqui para a frente.”

Para nós, consumidores, fica a constatação de que é impossível, ao menos por enquanto, saber a origem da carne que se leva à mesa. Ainda não existe um sistema de rastreamento que nos possibilite ter acesso a esse tipo de informação.


Carne de frigorífico no Pará, em foto de Sergio Neves/AE