Brasileiros perdem o emprego e a casa no Japão

Rodrigo Martins

06 Janeiro 2009 | 19h50

Um dos problemas sociais mais agudos da atual crise econômica é a perda do emprego. E no caso dos brasileiros que cruzaram oceanos em busca de trabalho, ela pode significar também a perda da moradia e uma grande frustração.

Estou falando dos dekasseguis, os brasileiros que vivem e trabalham no Japão. Falei com vários deles, por telefone, para um matéria que publicamos no último domingo no Estadão. As histórias são muito tristes.

Um dos efeitos colaterais mais penosos para os brasileiros que perdem o emprego em terras nipônicas é a perda simultânea de moradia. A maioria dos brasileiros trabalha por meio das empreiteiras (empresas que terceirizam mão-de-obra para a indústria), que fornecem apartamentos para os casados e alojamentos para os solteiros. Com as demissões, eles têm de desocupar os imóveis.

“Um desempregado, mesmo com dinheiro na mão, não atende às exigências de locação”, disse o sindicalista Francisco Freitas, um dekassegui que mora há dez anos no Japão e que de tempos para cá vem promovendo manifestações no País contra as demissões em massa de trabalhadores estrangeiros. “Muita gente está improvisando barracos sob viadutos. Era um cenário, há até pouco tempo, improvável no Japão”, disse ele, que reuniu 250 brasileiros em um protesto em Hammamatsu.

Modelo ultrapassado
A onda de desemprego reflete, além dos efeitos diretos da crise financeira e retração na demanda por produtos caros, a caduquice do modelo de negócios e de trabalho dos setores em questão – no caso, as indústrias de eletroeletrônicos e automobilística – que contam com a prematura obsolescência de seus produtos para continuar vendendo. Apesar da insustentabilidade, em tempos de bonança o modelo funcionava. Agora…

Os estrangeiros que foram em busca do sonho dekassegui – que significava trabalhar de oito a doze horas mecanicamente nas linhas de produção em troca de uma remuneração que hoje está na faixa dos US$ 12 a hora – estão sendo simplesmente dispensados ou são substituídos por pseudo-estagiários das Filipinas e Vietnã, que custam US$ 3 a hora.

Com queda na demanda por carros e eletroeletrônicos no próprio Japão e nos Estados Unidos, principal mercado para os produtos japoneses, as empresas estão reduzindo a produção. Para tentar atenuar o impacto da crise, o governo do Japão aprovou um pacote de 4,79 trilhões de ienes (o equivalente a US$ 54 bilhões) para evitar que o país entre em depressão. Mas muitos duvidam que irá funcionar.