Rede de ONGs alerta: crise hídrica em SP não está superada

Rede de ONGs alerta: crise hídrica em SP não está superada

André Palhano

19 Fevereiro 2016 | 11h34

cantareira

As chuvas de verão finalmente voltaram a fazer parte do cotidiano em São Paulo (em alguns casos de maneira dramática, especialmente na capital) e tudo indica que ficarão dentro da média histórica para o período, mas ainda estamos longe de uma situação confortável na oferta de água na região.  O alerta é da Aliança pela Água, rede composta de mais de 60 organizações e movimentos da sociedade civil ligados direta ou indiretamente ao tema, criada no ano passado no auge da crise hídrica.

“Temos uma percepção generalizada de que a crise acabou, mas isso é um equívoco. Sair da fase aguda da crise não significa que ela chegou ao fim”, afirma a coordenadora da Aliança, Marussia Whately. “Comemoramos por exemplo a recomposição do Cantareira em relação ao ano passado, mas esquecemos que ainda estamos numa situação bem pior do que a de 2014 e muito pior que a de anos anteriores”, exemplifica.

A maior preocupação apontada pela Aliança, no entanto, é o que consideram uma excessiva confiança em “São Pedro” por parte do governo estadual e da Sabesp, revelada em três decisões recentes: o relaxamento nos períodos de redução da pressão no bombeamento de água (vale lembrar que a pressão reduzida foi a principal responsável pela queda do consumo até agora); a mudança na política de descontos para o consumidor final que poupa; e os pedidos feitos pela Sabesp para aumento da vazão nas represas, atrasando a recuperação do sistema como um todo no médio e longo prazo.

Sobre o último item, explica Whately, houve uma controvérsia entre a Sabesp e a Agência Nacional das Águas (ANA). “A Sabesp admite chegar ao final do ano com um volume no Cantareira de 5%, enquanto a ANA recomenda que um nível confortável para recompor o sistema estaria próximo dos 20%. Acreditamos que mirar 5% em meio a fenômenos climáticos cada vez mais extremos e imprevisíveis é não aprender com as lições recentes da crise”, sublinha.

Em relação às mudanças na política de descontos na conta para os bons poupadores, ela alega que, além da falta de discussão e transparência no processo (a decisão foi tomada no fim de dezembro), a nova regra é confusa e deve ter como resultado a redução da quantidade de consumidores que alcançam o bônus na conta mensal de água. “Ao mesmo tempo, a sobretaxa foi mantida, ajudando a Sabesp a recompor caixa e dividindo essa conta com a população”.

Na visão da Aliança, outros fatores estruturais determinantes para a crise hídrica, em combinação com a falta de chuvas, também não estão sendo devidamente atacados e tornam esse período de conforto relativo na oferta de água ainda mais delicado. Entram aqui itens como a gestão excessivamente centralizada e com foco em obras e ampliação do consumo, a degradação das fontes de água nos territórios rurais e urbanos, as incertezas meteorológicas decorrentes das mudanças climáticas e, por fim, a fraca transparência, participação e controle social nos dados, políticas e decisões associadas.

“Temos que encontrar soluções mais duradouras e estruturais para a escassez, criando de fato uma nova cultura de cuidado com a água dentro dessa nova realidade da oferta. Se não fizermos isso, de nada terão servido as tantas e duras lições aprendidas com a crise”.

(foto: intervenção do artista Mundano em carro abandonado na represa do Atibainha, sistema Cantareira – créditos: G1.com.br)