Premiação revela tecnologias sociais transformadoras

Premiação revela tecnologias sociais transformadoras

Tecnologias sociais trazem soluções simples, criativas e de baixo custo para problemas sociais em diversas regiões brasileiras e da América Latina

André Palhano

29 Novembro 2017 | 11h34

O que há em comum entre um kit que transforma óleo vegetal usado em combustível, um centro cirúrgico móvel para comunidades indígenas e uma fossa agroecológica que melhora a vida de agricultores no semiárido nordestino? Além de representarem soluções simples e criativas para um problema social, elas têm como base um conjunto de técnicas e procedimentos que, uma vez registradas e padronizadas, podem ser replicadas em outras regiões com problemas semelhantes. São as chamadas tecnologias sociais.

No mar de jargões e termos da área socioambiental, demorei a compreender exatamente o que definia uma tecnologia social. Impossível não pensar no mundo “nerd” da tecnologia fazendo, sei lá, algo de “bom” pelo mundo, tipo um supercomputador que resolve o problema da fome na África ou uma máquina hi-tech que ajuda a despoluir as águas do Rio Tietê.

Claro que os avanços tecnológicos são e devem ser usados cada vez mais nesse sentido, e muitos deles se tornam tecnologias sociais, mas existe aqui uma diferença importante: nem toda tecnologia social usa computador, smartphone ou qualquer máquina futurista para solucionar problemas sociais. Na maior parte dos casos, acontece o contrário: as soluções são ideias simples, baratas e de fácil aplicação, muitas vezes pensadas por quem enfrenta as agruras diárias da desigualdade social brasileira, como a escassez de água potável ou a falta de luz elétrica.


Um dos exemplos mais citados e de fácil compreensão é o do soro caseiro, cuja invenção (da fórmula exata) é atribuída ao médico Norbert Hirschhorn durante sua passagem por Bangladesh. Ele descobriu a proporção exata de uma mistura tão simples (sal, açúcar e água) e que ao mesmo tempo foi responsável por salvar a vida de mais de 50 milhões de pessoas, fazendo dessa a mais conhecida e difundida tecnologia social do planeta.

Fui convidado na semana passada a participar da nona edição do Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social, promovido pela fundação que responde por boa parte do investimento social privado do Banco do Brasil.  Já tinha ouvido falar no Prêmio – a Fundação BB é referência na área – e tudo indicava que seria mais um enfadonho evento corporativo para mostrar o lado “valor compartilhado” das empresas com a sociedade, como tantos outros em que já estive.

Confesso que estava equivocado. Além do clima de festa e companheirismo entre os finalistas, a seleção das tecnologias foi realmente criteriosa, as principais agências do sistema ONU (PNUD, UNESCO e FAO) estavam ali representadas como parceiras, conferindo credibilidade ao Prêmio, e o que mais me impressionou: as tecnologias sociais, sem exceção, eram realmente encantadoras.

Entre os finalistas, teve poste de luz solar de baixo custo para comunidades sem iluminação pública, dessalinizador solar que melhora a qualidade da água no interior da Paraíba, um lindo projeto de socialização para autistas usando a música como ferramenta principal, o jogo que mostra de forma lúdica e oportuna como funciona a política institucional brasileira e uma premiação específica – novidade desta edição  – de projetos na América Latina, levada por um portal multimídia que torna visíveis as condições de vida em bairros segregados na cidade de Buenos Aires (olha aqui um exemplo bacana de tecnologia social surfando no avanço tecnológico).

Nesses tempos bicudos e de tantas más notícias, foi emocionante ver e conhecer cidadãos que mesmo invisíveis são verdadeiros transformadores de suas próprias realidades, superando adversidades e a ausência do Estado com criatividade e resiliência. Uma prova inconteste de que nesse Brasil afora há pessoas de todos os tipos fazendo muito mais do que “garantir o meu e dane-se o resto”, esse estigma que parece grudado à identidade do povo brasileiro, tendo na classe política seu pior exemplo.

Vale a pena conhecer um pouco mais desse universo e um bom caminho é o próprio Banco de Tecnologias Sociais (BTS) da Fundação, que reúne cerca de 1.000 iniciativas certificadas nas mais diversas áreas, como saúde, educação, habitação e meio ambiente, entre outras. http://tecnologiasocial.fbb.org.br/tecnologiasocial/principal.htm

Para quem se interessa e gostaria de atuar nesse tema, ainda uma novidade: no final do evento de premiação o BNDES anunciou o lançamento de um edital em 2018 no valor total de R$ 10 milhões, voltados para a reaplicação das tecnologias sociais certificadas pela Fundação em localidades distintas. É um valor quase irrisório diante do enorme desafio social que o País tem pela frente, mas não deixa de ser um começo. Os detalhes do edital serão divulgados em breve.

*O jornalista viajou para Brasília e teve seus gastos de hospedagem e transporte custeados pela Fundação Banco do Brasil.