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Voluntários vigiam a qualidade da água dos rios de São Paulo
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Voluntários vigiam a qualidade da água dos rios de São Paulo

Ao todo, 125 grupos de observadores de rios, sob orientação da SOS Mata Atlântica, atuam em 90 corpos d’água que formam as bacias do Alto e Médio Tietê

Giovana Girardi

22 Setembro 2016 | 03h00

Cesar Pegoraro e Isabelle Aguiar Coelhas coletam água do Córrego do Sapé. Crédito: Felipe Rau / Estadão

Cesar Pegoraro e Isabelle Aguiar Coelhas coletam água do Córrego do Sapé. Crédito: Felipe Rau / Estadão

“Olha só, a água está cristalina, agora tem até peixinho”, contava empolgada, na última segunda-feira, a pequena Isabelle Aguiar Coelhas, de 8 anos, diante do Córrego do Sapé, no bairro do Rio Pequeno (zona oeste da capital). Mas uma coisa preocupava o grupo de adultos que estava ao lado dela. No final de semana anterior, tinha começado a jorrar esgoto de uma galeria pluvial que deságua no córrego. A suspeita é que se tratava de alguma ligação clandestina.

Logo a Sabesp foi acionada, e técnicos começaram a investigar o origem daquele esgoto, enquanto o grupo voltava a seus afazeres. Eles estavam ali cumprindo uma programação que já vem de quase dois anos. Todo mês, munidos de luvas, pequenos frascos e reagentes químicos, avaliam a qualidade da água do córrego.

São um dos 125 grupos que atuam em 98 corpos d’água das bacias do Alto e Médio Tietê e que fazem parte do projeto “Observando os Rios”, da SOS Mata Atlântica. São os dados que eles coletam que ajudam a traçar o perfil da qualidade do principal rio paulistano. O levantamento mais recente, lançado nesta quinta-feira, mostrou que 137 km do Tietê ainda tem qualidade ruim ou péssima. O Sapé deságua no Jaguaré, que vai para o Pinheiros e termina no Tietê.

Isabelle e a avó, Maria Ilza, faziam ginástica em uma praça à beira do córrego quando começaram a ver uma movimentação no ano passado. “Pedi para vir experimentar e minha avó deixou”, conta a menina, que não se contentou em olhar. Logo quis pular na beira da água para ajudar. É ela e Cesar Pegoraro, educador ambiental da SOS, que mensalmente pulam a mureta que canalizou o córrego e descem até o seu leito para coletar um pouco de água.

Maria Ilza lembra que isso há até bem pouco tempo isso não era possível. O córrego era praticamente coberto por uma favela. Barracos de palafita ficavam por cima dele e o esgoto corria solto, atingindo até 1,5 metro de altura.

A partir de 2009 começou um processo de urbanização e a partir de 2011 teve início a construção de rede para a coleta de esgoto, pronta no começo de 2014. Hoje os dejetos não chegam mais, peixinhos voltaram, e a comunidade, que só via ali um grande lixão, começou a olhar de novo para o córrego e a cuidar dele. Além do monitoramento da água, fazem mutirões para a limpeza de lixo que ainda tem gente que insiste em jogar no rio. E justamente por terem abraçado o Sapé que foram capazes de identificar a nova ameaça.

Detalhes do material usado no monitoramento dos rios. Crédito: Felipe Rau / Estadão

Detalhes do material usado no monitoramento dos rios. Crédito: Felipe Rau / Estadão

Foi mais ou menos na mesma época que a rede de esgoto começou a funcionar que a SOS convidou os moradores a participarem do monitoramento. Juntos analisam se tem cheiro e lixo ou peixes e outros organismos. Medem temperatura e os níveis de oxigênio, de coliformes fecais, de fosfato, nitrato, o nível de acidez da água e de turbidez.

Todo mundo participa, verificando as cores que mudam nos frasquinhos quando se mistura a água do córrego com algum dos reagentes. Pegoraro aproveita cada análise para explicar o que os dados significam. “Hoje encontramos vários bichinhos vermelhinhos”, fala enquanto passa o pote com água na mão de um a um. “São uns verminhos, que funcionam como bioindicadores. A gente nunca tinha visto tantos aqui. Eles inspiram atenção, porque podem indicar alguma contaminação da água com matéria orgânica”, explica, já levantando suspeita sobre o vazamento que eles tinham acabado de detectar.

Na sequência eles medem a temperatura: 22°C. Bom, mas poderia ser melhor. “Quanto mais quente, menos oxigênio”, explica o educador. “O ideal é estar fresco, mas como não temos mata ciliar, acaba esquentando mesmo.”

Na primeira medição do local, feita há mais de dois anos, a análise indicou qualidade péssima. Na segunda-feira, mesmo com o vazamento, a nota do Sapé ficou no limite entre o regular e o bom. A comunidade ficou orgulhosa.

O “Observando os Rios” conta com grupos em vários pontos da cidade, das mais diversas condições sociais e ambientais, a fim de mapear as bacias como um todo. “Para trabalhar com gestão de água, de saneamento, é preciso ir além do rio principal e olhar os córregos, o solo. Tem de entender as condições do micro para poder atuar no macro. Precisamos de todos os riozinhos limpos para ter o Tietê limpo”, explica Gustavo Veronesi, coordenador do projeto.

Aula prática. Em outro canto da cidade, alunos do colégio Augusto Laranja, na zona sul de São Paulo, fazem o mesmo processo em uma realidade bem distinta, o córrego Água Espraiada, que corta a avenida Roberto Marinho e hoje fica embaixo das obras do monotrilho. Os alunos do ensino médio foram levados pela professora de Química Luciana Carvalho Serrasqueiro a testarem na prática os ensinamentos teóricos.

Estudantes do colégio Augusto Laranja monitoram o córrego Água Espraiada. Crédito: Felipe Rau / Estadão

Estudantes do colégio Augusto Laranja monitoram o córrego Água Espraiada. Crédito: Felipe Rau / Estadão

“A gente fala muito de pH em aula, o que é um meio ácido, básico ou neutro ou como os íons interferem na água, e ali eles podem ver o que isso significa”, afirma Luciana.

Logo entraram na jogada os professores de biologia (para falar de doenças transmitidas pela água), de geografia (e o conceito de bacia hidrográfica) e de matemática (para analisar os dados), e o projeto se tornou interdisciplinar.

Os alunos admitem que sentiram um certo nojinho no começo e alguns não quiseram participar da atividade voluntária. Os que foram, porém, relatam que mudaram sua visão sobre o rio. Ao contrário do Sapé, o Espraiada passa quase despercebido por quem anda pela região. Cercado por muretas altas, não é visível por quem passa em alta velocidade pela avenida. Só o mau cheiro revela que tem um corpo d’água passando por ali.

“Confesso que nem sabia que tinha um rio aqui e moro logo do lado, no Brooklyn, passo sempre aqui”, conta Thalita Carvalho Arcuschin, de 17 anos. Ele esteve no primeiro grupo de alunos a participar do projeto, mas já não ia havia quase um ano porque agora está focada no vestibular. “A sensação é que ele parece ainda pior.”

Arthur Costa, também de 17 anos, revela que quando soube do projeto achou a ideia “meio nada a ver”. “Parecia uma realidade muito distante. Só depois fui entender a importância de cuidar do rio para a vida das pessoas.”

A turma já chegou a fazer protesto para a melhoria do córrego, mas em três anos não viu nenhuma melhora. A qualidade da água esteve sempre ruim.

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