Um toque de delicadeza em um tema tão árido

Um toque de delicadeza em um tema tão árido

Giovana Girardi

27 Março 2014 | 00h44

Toemon Sano, guardião das cerejeiras de Kyoto

A história que reporto na edição desta quinta do jornal, sobre as testemunhas das mudanças climáticas no Japão, tem um toque de delicadeza que dificilmente aparece em reportagens desse assunto.

Falar de aquecimento global e de aumento das emissões de gases de efeito estufa é por um lado falar de uma dinânica planetária, de uma ciência que é difícil de entender. Por outro lado, é relatar somente desgraças. Desastres ambientais de todo o tipo, morte de gente, de espécies, falta de comida, de água, de infraestrutura, de dinheiro. É problema sem fim. E entendo que isso canse.

Por isso fiquei tocada com a história de Toemon Sano, de 86 anos, que gerencia um negócio de jardinagem próximo a Kyoto e herdou do pai a tradição de cuidar das cerejeiras frondosas, famosas, que mais atraem visitantes na cidade.


Com a experiência de quem trabalha com as cerejeiras quase a vida toda, ela conta que as árvores estão mudando. Para ele, o problema do clima não são os tufões, mas o sofrimento de suas queridas flores. As mudanças climáticas ainda não estão devastando as cerejeiras em todo o país. Por enquanto, estão fazendo elas florirem mais cedo. Claro que é um sinal de estresse e de que elas podem entrar em colapso em breve. Mas ainda é uma mudança quase sutil.

“A sobrevivência das cerejeiras depende de quanto carinho a humanidade dá para elas. Elas conseguem se adaptar ao clima, mas se as mudanças são rápidas demais, temo que elas percam essa capacidade”, diz Sano.

Ao norte do Japão, nas Montanhas Shirakami (ou deus branco), no norte do país, também é possível ver essa mudança sutil. As castanhas da faia, uma árvore característica daquela região, estão sofrendo.

Ex-caçador de ursos e hoje guia turístico do parque, Mitsuharu Kudo conta que “alguma coisa incomum está acontecendo na floresta – a neve está diminuindo e há uma infestação de insetos que comem as castanhas da faia todo ano.”

Ele lembra de como era 50 anos atrás. “Quando eu era mais jovem a gente passava duas semanas na floresta, caçando e coletando na montanha durante a primavera. Não minávamos o ecossistema, humanos e a natureza vivem em boa harmonia na floresta. Agora há menos frutos. Tenho medo que eventualmente a faia fique muita cansada de fornecer frutos. Essas árvores vivem há milhares de anos, mas se nós as perdemos na nossa geração será totalmetne inaceitável. Pedimos para os governantes que permitam que elas cheguem às próximas gerações.”

No fundo, é isso que a gente se esforça tanto pra comunicar – o que significam as mudanças climáticas para a vida de cada um. Fiquei feliz de poder compartilhar isso.

Em tempo. O Japão tem uma relação interessante com grandes discussões diplomáticas ambientais. Aqui nasceram dois documentos importantes: o protocolo de Kyoto, de 1997 – primeiro acordo global sobre emissões de gases de efeito estufa, que estabeceu metas de redução para os países ricos; e o protocolo de Nagoya, de 2010, sobre uso da biodiversidade, que determina regras básicas para o acesso aos recursos genéticos e a repartição de benefícios provenientes de sua utilização. Vamos ver como ele se sai agora nessa discussão do IPCC.

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