Um projeto gigante de corredor verde e os desafios da restauração florestal
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Um projeto gigante de corredor verde e os desafios da restauração florestal

Com extensão de 2.600 km, proposta de ONG holandesa ao longo de todo o Rio Araguaia tem como bandeira a proteção da onça-pintada preta; projeto se baseia em recuperação de áreas desmatadas, hoje um dos maiores desafios e promessas no Brasil para o combate à mudança do clima

Giovana Girardi

08 Setembro 2016 | 06h00

HONOLULU – Imagine um trabalho de reflorestamento de 2.600 quilômetros contínuos, com até 40 quilômetros de largura, cortado a metade norte do Brasil em uma área total de 10,4 milhões de hectares, com cerca de 2 bilhões de árvores plantadas.

O projeto ousado foi apresentado pela ONG holandesa Black Jaguar Foundation, em parceria com uma brasileira e também cientistas nacionais, durante o Congresso Internacional de Conservação da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), que é realizado em Honolulu (Havaí).

Mapa do rio Araguaia. Corredor seria feito ao entorno dos seus 2.600 km, com até 40 km de largura

Mapa do rio Araguaia. Corredor seria feito ao entorno dos seus 2.600 km, com até 40 km de largura

Visando o reflorestamento das áreas de preservação permanente (APPs), a até 20 km de cada margem, e de Reserva Legal durante todo o trajeto do Rio Araguaia, que nasce no Parque Nacional das Emas (GO) e deságua no Atlântico, em Belém (PA), o projeto tem como ponto de partida o Código Florestal, que obriga a recuperação de áreas desmatadas ilegalmente. Mas propõe que isso seja feito de modo integrado, fazendo com que os trechos recuperados tenham conexão, a fim de promover um grande corredor para a biodiversidade que transita – ou não mais, justamente pela falta de floresta – naquela região.

A ideia de corredores não é nova e orienta projetos de conservação há muitos anos no Brasil, mas esse, se der certo, seria o maior do País. O mecanismo por trás dele, porém, que implica em proprietários de terra fazendo replantio de floresta, é hoje um dos principais desafios ambientais do Brasil e do mundo e foi um dos temas mais discutidos nos primeiros dias do congresso da IUCN em razão de seus benefícios tanto para a proteção da biodiversidade, quanto para diminuir os impactos das mudanças climáticas e aumentar a resiliência dos países a elas (leia mais sobre isso em texto abaixo).

Nacionalmente, o Brasil se comprometeu a restaurar e reflorestar, até 2030, 12 milhões de hectares de florestas, como parte de sua meta de reduzir emissões de gases de efeito estufa proposta como contribuição ao Acordo de Paris. Como isso vai ser feito e por quem vai pagar a conta ainda é objeto de intensa discussão e de estudos.

Para o holandês Ben Valks, que criou a Black Jaguar Foundation depois de se aventurar pela região amazônica, sem sucesso, em busca da “black jaguar” – uma variante rara de onça pintada, que em vez da pelagem caramelo tradicional, é mais escura, se misturando com as pintas negras –, um dos caminhos para conseguir fazer com que os proprietários de terra se adequem à lei é levantando fundos em todo o mundo.

Onça rara já não encontrada na área foi o que motivou o projeto

Onça rara já não encontrada na área foi o que motivou o projeto

Com o mote de que “é tarde demais para ser pessimista”, ele levantou uma verba inicial, que não quis informar de quanto, para dois plantios-piloto em duas propriedades em Limoeiro (PA) e Caseara (TO), totalizando uma área total de 6 mil hectares, para usar como modelo concreto para divulgar o projeto e alavancar os recursos.

A equipe de Valks calcula por alto que vai precisar bem de uns 4 bilhões de euros (em torno de R$ 14 bilhões) para fazer tudo isso, mas defende que como os ganhos climáticos desse corredor, que cortaria os biomas Cerrado e Amazônia), são para o mundo inteiro, pessoas, empresas e governos de qualquer lugar poderão se interessar em contribuir.

Déficit. Hoje somente cerca de 15% do curso do rio tem algum grau de proteção governamental: 10% com terras indígenas e 5% com parques nacionais. Os proprietários que têm terras no entorno deveriam proteger APP e Reserva Legal, em taxas variando de 20% a 80% das propriedades.

As cifras exatas de quanto disso foi desmatado devem ser fornecidas pelo Cadastro Ambiental Rural (CAR), ferramenta do Código Florestal que estabelece que todo dono de terra tem de informar, de modo geolocalizador, as informações de produção e de proteção de suas áreas. Mas a expectativa é que a maioria já tenha ido embora pela pressão da agropecuária.

Além das onças pintadas, que hoje estão sumidas da região justamente por conta da perda de habitat, o projeto espera beneficiar o boto-cor-de-rosa, a lontra gigante, o jacaré-açu e a piraíba, a maior espécie de peixe de couro da América do Sul. As espécies, no entanto, são apenas a bandeira do projeto. Segundo Ivan Nisida, coordenador de projeto da ONG, a ideia é desenvolver com os proprietários práticas agroecológicas de integração floresta-pecuária-lavoura para tornar a economia local sustentável e livre de novos desmatamentos.

“Queremos que as parcerias com produtores, independentemente do porte, produzam benefícios sociais e econômicos. Além dos impactos ambientais positivos, o Corredor do Araguaia vai figurar como um vetor de prosperidade”, diz.

Questionando sobre se não é um projeto quase impossível de ser alcançado, Valks respondeu: “É difícil, mas somos uma ONG com um projeto só. Grandioso, mas é o nosso foco. E estamos trabalhando com o cumprimento da lei, com a necessidade que os produtores têm de restaurar suas terras, então é, de certo modo, mais prático”.


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Um dos pontos centrais das discussões de ONGs e do governo brasileiros no congresso da IUCN foram os desafios e os benefícios das metas de restauração florestal no Brasil.

A tradicional ideia de que se trata de uma iniciativa cara – o preço para restaurar os 12 milhões de hectares prometidos pelo governo federal até 2030 já foi estimado em pelos menos R$ 31 bilhões –, foi combatida por pesquisadores e ambientalistas que pedem para que se olhe para os benefícios da restauração.

“O plantio de árvores nativas gera residência, emprego, segurança hídrica, melhora o solo, além de absorver carbono”, comenta Rachel Biderman, diretora do World Resources Institute (WRI) no Brasil.

Ela destaca ainda que o preço não é alto quando se compara com outras tecnologias complexas que estão sendo usadas ainda em pequena escala de sequestro de CO₂. “Na comparação com outras alternativas, a restauração florestal ainda é a forma mais barata de tirar carbono da atmosfera”, diz.

O WRI faz parte da Coalização Brasil Clima Florestas e Agricultura, que reúne mais de 120 empresas, ONGs, associações setoriais e centros de pesquisa em busca, entre outras coisas, de estratégias para fazer com que a restauração florestal alcance uma larga escala no Brasil.

Para isso, afirma Rachel, vem sendo investigadas iniciativas isoladas já em curso no Brasil para oferecer um leque de melhores opções aos produtores.

Desafio de Bonn. E não é só o Brasil que está interessado nisso. Durante o congresso da IUCN foi comemorado que o chamado Desafio de Bonn – esforço de adesão voluntária global que tem como meta a restauração de 150 milhões de hectares, em todo o mundo, de florestas degradadas até 2020 – está perto de ser cumprido.

Compromissos que vêm sendo assumidos desde 2011 e que ganharam um impulso nos últimos anos, ultrapassaram a marca dos 100 milhões de hectares, segundo anúncio feito no final da semana passada. O número exato são 113 milhões de hectares distribuídos em compromissos assumidos por 36 países, organizações e empresas.

O Brasil não entrou no desafio, mesmo tendo a meta de restaurar 12 milhões de hectares junto ao Acordo de Paris. José Pedro de Oliveira Costa, secretário de Biodiversidade e Florestas, sinalizou em Honolulu que isso está na mira do governo e que pode ser concretizado depois que o presidente Michel Temer ratificar o acordo, o que está agendado para acontecer na próxima segunda (12).

O Desafio de Bonn, defendem ambientalistas, pode ajudar a viabilizar a meta dos 12 milhões. “Vira um veículo de implementação, uma vez que dá a uma proposta hoje nacional uma visibilidade global ao fazer parte de um compromisso maior”, defende Miguel Calmon, gerente de Restauração da Paisagem do Programa Global de Florestas e Mudanças Climáticas da IUCN, que dá suporte ao desafio.

* A repórter viajou para Honolulu a convite da IUCN