Turismo de onças vale 56 vezes mais que prejuízo com gado atacado pelo felino

Turismo de onças vale 56 vezes mais que prejuízo com gado atacado pelo felino

Ganhos anuais com pacotes de turismo com tours de observação das onças-pintadas são de pelo menos US$ 6,8 milhões na região. Enquanto os danos ao gado causados por ataques do felino foram estimados para cerca de US$ 121.500

Giovana Girardi

07 Junho 2017 | 13h24

Onça avistada na região de Porto Jofre. Crédito: Fernando Tortato

A noção de que conservar a biodiversidade é um bom negócio não só para o ambiente, mas também para a economia, acaba de ganhar um reforço científico de peso. Pesquisa publicada nesta terça-feira, 6, que comparou os ganhos anuais com o turismo de observação de onças-pintadas no Pantanal do Mato Grosso em relação aos prejuízos ocasionados pela perda de gado por eventuais ataques dos felinos mostrou que a renda com a conservação supera os prejuízos em 56 vezes.

Esse é o principal resultado de um trabalho realizado por pesquisadores da ONG Panthera, da Universidade Federal do Mato Grosso e da Universidade East Anglia, na Inglaterra, que buscou avaliar as dinâmicas do conflito entre seres humanos e vida selvagem na região de Porto Jofre (MT).

O local desde o início dos anos 2000 vem desenvolvendo o turismo de observação de onças, principalmente ao longo do rio Cuiabá. Pousadas que surgiram por ali para prestar o serviço coexistem com fazendas de criação de gado. O estudo calculou que os ganhos anuais com pacotes de turismo com tours de observação das onças-pintadas são de pelo menos US$ 6,8 milhões na região. Enquanto os danos ao gado causados por ataques do felino foram estimados em cerca de US$ 121.500.

Conflitos históricos. A relação entre o pantaneiro tradicional, que cria gado, e o maior felino das Américas, é historicamente conflituosa. Onças-pintadas, que encontram no Pantanal um dos principais refúgios no Brasil por causa de seu alto grau de preservação ambiental e pela oferta farta de alimento, acabam, com alguma frequência, também se valendo de animais de cria soltos pelos pastos naturais. Oportunistas, os grandes gatos não vão deixar passo uma presa fácil que esteja afastada do rebanho.

Isso ressente os pecuaristas, que em geral acabam contratando caçadores para abateram as onças. Ainda hoje, mesmo com o sucesso dos programas de ecoturismo, matar o felino é motivo de orgulho para muitos pantaneiros.

Trabalhos de ONGs como a Panthera ou o Onçafari, no Mato Grosso do Sul, e mesmo de pesquisadores dos grandes felinos e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) focam na mensagem aos produtores sobre a necessidade de realizar boas práticas de manejo, como não deixar animais menores e mais jovens sozinhos e atentar para mover o gado quando a água começa a subir. Maior planície alagável do mundo, o Pantanal cerca de metade do ano com boa parte de sua área. debaixo d’água

Segundo o pesquisador Fernando Tortato, principal autor do estudo, uma das condições que facilita o ataque é quando o gado acaba ficando ilhado por causa da cheia. Segundo ele, ações que diminuam a vulnerabilidade do gado podem também reduzir os danos. Ainda assim, estima ele, a perda de gado por causa das onças na região de Porto Jofre é de apenas cerca de 2,5% do rebanho. Levantamento feito no Refúgio Caiman, em Miranda (MS), pelo grupo do Onçafari, traz uma estimativa parecida, de 1,5%

Ele usou esse dado e também estimativas de quantas cabeças de gado caberiam em toda a área estudada para calcular os potenciais prejuízos, chegando ao valor de US$ 121,5 mil. Para saber os ganhos com o ecoturismo, ele trabalhou com os dados de sete pousadas da região.

Tortato pondera, no entanto, que apesar de os ganhos com o turismo serem muito maiores, para o fazendeiro que perdeu um animal, a vantagem não é exatamente direta. “Para o pecuarista que não trabalha com o turismo, o valor que a pousada vizinha ganha com a prática não lhe diz nada. O seu prejuízo continua sendo suficiente para ele não gostar da onça e querer caçá-la”, afirma.

“Uma perda de 1,5% a 3% não é tão significativo, mas é uma coisa cultural. Se o pecuarista perde 3% do rebanho por doença ou porque animais atolaram nas cheias, ele releva, acha que é o normal da região. Mas por onça, ele quer retaliar”, comenta.

Por isso, a pesquisa investigou, junto a turistas, a disposição deles de compensar esse prejuízo. O trabalho ouviu uma centena de turistas e constatou que 98% estariam dispostos a pagar uma taxa adicional para compensar financeiramente as fazendas de bovinos perdidos por onças, com 80% dos turistas dispostos a doar uma média de 6% dos custos do pacote turístico para esse fim.

A ideia, afirma Tortato, é que os pecuaristas que realizem as boas práticas poderiam ser beneficiados por esse tipo de compensação. “Não é só pagar pelo prejuízo, mas estimular as melhores práticas”, diz. Assim, eles não sairiam perdendo e ainda ajudariam a conservar a espécie que, para o bioma como um todo, vale muito mais viva desfilando para a alegria dos turistas.

“Se quisermos consolidar paisagens de conservação economicamente viáveis, essa mudança de portfólio do meios de subsistência exigirá cada vez mais compensações financeiras para que haja uma maior tolerância por parte dos proprietários de terra ao predadores naturais ferozes”, resumiu Carlos Peres, da East Anglia, em comunicado à imprensa.

O estudo foi publicado na revista Global Ecology and Conservation.