Clima mais quente empurra malária para regiões altas

Clima mais quente empurra malária para regiões altas

Giovana Girardi

07 Março 2014 | 14h15

Um dos principais temores de impacto do aquecimento global à saúde humana – de que doenças tropicais poderiam se espalhar para regiões mais frias – começa a ganhar força dentro da comunidade científica.

Uma pesquisa divulgada na edição desta sexta-feira da revista Science com base nas alterações climáticas atuais mostra que o aumento da temperatura em altitudes mais elevadas nas regiões tropicais, especialmente em terras altas da África e da América do Sul, já está sendo seguido por um aumento do número de casos de malária.

As temperaturas tradicionalmente mais baixas nessas regiões sempre funcionaram como uma barreira para a doença, uma vez que dificulta que o mosquito que funciona como seu vetor complete seu ciclo de vida assim como desacelera a replicação do parasita causador da malária.


Pesquisadores de universidades americanas, inglesas e etíopes avaliaram a incidência da doença em 124 cidades do oeste da Colômbia, de 1990 a 2005, e em 159 unidades administrativas da Etiópia central, de 1993 a 2005, além da distribuição dos casos conforme a altitude. Descobriram que nos anos mais quentes, mais casos de malária foram reportados nas altitudes mais elevadas, ao passo que nos anos mais frescos a ocorrência voltou a ser maior nas terras mais baixas.

O estudo lança um alerta sobre o que pode acontecer com a doença diante do aquecimento global. Os possíveis impactos das mudanças climáticas sobre doenças tropicais, não só a malária, mas também dengue e febre amarela, têm mobilizado a comunidade científica há mais de 20 anos.

Mas modelagens climáticas têm falhado em fazer uma projeção sobre o comportamento geral das doenças porque ao mesmo tempo que ela pode ficar mais comum em áreas frias que vierem a se aquecerem, poderiam ser reduzidas nos locais onde hoje elas ocorrem porque ficariam quentes demais para os vetores e parasitas.

O novo estudo é o primeiro a constatar a migração da doença. “O que vimos é um claro sinal de resposta da malária em direção a terras mais altas diante de uma mudança no clima”, disse a ecóloga Mercedes Pascual, da Universidade de Michigan, e principal autora do trabalho, em comunicado à imprensa.

“É um prova irrefutável do efeito climático. A principal implicação é que, com temperaturas mais quentes, podemos esperar um maior número de pessoas expostas ao risco de contrair malária em áreas altas tropicais como essas.”

A situação fica mais complicada porque as pessoas que vivem nas áreas mais altas não estão acostumadas à doença. “Sem o contato, essas populações não tem uma imunidade protetores, o que as torna particularmente vulneráveis a severas morbidade e mortalidade”, complementou Menno Bouma, da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres e co-autor da pesquisa.

Para os cientistas, se não houver um trabalho de mitigação das mudanças climáticas, centenas de milhares de novos casos de malária por ano poderiam ser esperados nos dois continentes com apenas um grau de aumento da temperatura.

Em tempo. No final do mês será divulgado em Yokohama, no Japão, a segunda parte do 5º Relatório de Avaliação do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), que vai tratar dos impactos, da adaptação e da vulnerabilidade. Um dos capítulos fala justamente sobre saúde e deve trazer um parecer preocupante nesse sentido.