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Solução para água vai além de obras, dizem especialistas

Giovana Girardi

22 março 2016 | 03:00

De que a Região Metropolitana de São Paulo precisa para se tornar mais resiliente a extremos de chuva e seca? Especialistas defendem um conjunto de ações que vão além do aprofundamento de calhas ou da construção de piscinões e pedem parques lineares, piscininhas nas residências e reúso de água potável

Atualizada às 17h13

Há um ano, a Região Metropolitana de São Paulo sofria com a falta d’água; há 11 dias, 25 pessoas morriam por excesso dela. Em um futuro de aquecimento global, em que a alternância de eventos climáticos extremos pode ser cada vez mais comum, o que é preciso fazer para tornar o conglomerado urbano da capital mais resiliente? Para o Dia Mundial da Água, comemorado nesta terça-feira, o Estado ouviu especialistas em recursos hídricos para responder a essa pergunta.

A solução, dizem, é complexa. Pede uma mudança estrutural e coordenada, que vai além das obras de ampliação de calha de rios ou de construção de piscinões e demanda ações como plantio de árvores, construção de reservatórios pequenos e espalhados pela cidade e reúso de água que seja potável (mais informações no quadro abaixo).

Modelo prevê como seria uma cidade ideal e resiliente. Clique na imagem para ver ampliado

Modelo prevê como seria uma cidade ideal e resiliente. Clique na imagem para vê-la ampliada e com detalhes das ações necessárias

Uma análise que será divulgada hoje pela Fundação SOS Mata Atlântica mostra que no último ano houve uma piora da qualidade dos rios e córregos da cidade, em parte provocada por essa variação dos extremos.

“Tradicionalmente, considerava-se na academia que períodos chuvosos, por trazerem maior vazão, permitiam que os rios se renovassem e houvesse uma diluição das cargas de poluição normalmente mais altas na seca. Mas com o aquecimento global, as ilhas de calor nas regiões muito urbanizadas e a impermeabilização intensa do solo, essa condição muda completamente”, afirma Malu Ribeiro, coordenadora do levantamento. “Os temporais intensos acabam causando mais erosão, assoreamento dos rios e carregamento de poluentes.”

Mananciais. Entre março do ano passado e fevereiro deste ano, foram avaliados 89 pontos em corpos d’água da capital, como parte de uma investigação de 183 rios, córregos e lagos no Brasil. Nenhum dos pontos em São Paulo apresentou qualidade boa.

Na comparação com os 56 pontos em que tinha ocorrido coleta no ano anterior, os únicos dois bons, localizados em áreas de manancial no Parque dos Búfalos (Represa Billings) e em Parelheiros (Represas Billings/Guarapiranga), passaram a regular. E alguns que eram regulares passaram a ruim. No primeiro caso, diz Malu, houve um agravante: ocupações de moradias irregulares no entorno dos mananciais. Ela defende que cenários de risco sejam incorporados nos planejamentos de obras de grande prazo.

Quando foi feito o projeto de rebaixamento da calha do Tietê, em 1998, esperava-se que isso ia controlar cheias por cem anos. Ele usava regras de engenharia com base nas ocorrências históricas, mas com as mudanças na cidade e no clima isso não se aplica mais. O nosso planejamento está sendo desafiado.”

Malu Ribeiro

Para a bióloga, o primeiro passo seria mudar a legislação que classifica rios em classes de 1 a 4. A última, que é onde se enquadram o Tietê e o Pinheiros dentro da cidade, permitem níveis muito alto de poluição. Se essa categoria fosse revogada, o nível de poluentes despejado na água teria de cair.

“Isso é só o primeiro passo. É preciso um conjunto de ações integradas que envolvem promover a regularização de moradores em área de manancial, desocupando onde for possível. Fazer parques lineares no entorno de rios e córregos, ampliar e recompor com vegetação as várzeas. Sem floresta não tem água”, defende.

Para ela, algumas ações como as listadas pelo governo estadual recentemente, de aprofundar as calhas dos Rios Tietê e Pinheiros, são paliativas. “Fazer aprofundamento de calha tem efeito de enxugar gelo. O ideal é ter mais reflorestamento, menos desmatamento nas cabeceiras dos grandes rio. Mas a gente fez opções erradas, como de construção de mais pistas nas marginais. Para resolver essas obras equivocadas, acaba tendo de fazer isso”, diz.

Piscininhas e reúso. Estudo lançado no ano passado dentro do projeto Brasil 2040 observou que num contexto futuro de eventos extremos é preciso investir concomitantemente na chamada detenção de água distribuída em São Paulo.

“Em vez de fazer só piscinão, que são obras caras, propomos fazer alteração na lei orgânica para incentivar que cidadãos captem e reservem água de chuva em casa. Isso é bom para prevenir alagamento e reduzir a pressão sobre consumo de água nos períodos seco”, afirma o oceanógrafo Wilson Cabral, do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA).

Ele explica que seria necessário fazer uma pequena adaptação para fazer o aproveitamento conjunto. “O reservatório de água para uso tem que ser independente, ainda que alimentado pelo sistema de piscininhas. Isso porque o uso da água se dá em um tempo diferente da enchente. Para amortizar a cheia é preciso que o reservatório esteja vazio. Pense numa chuva de manhã e outra à tarde: se for um reservatório só, a chuva da manhã o enche e quando chover à tarde não deu tempo de usar a água, o reservatório ainda estará cheio e não amortizará a chuva da tarde… Já com um sistema com dois reservatórios, isso funcionaria para ambas as situações.”

Para Ivanildo Hespanhol, diretor do Centro Internacional de Referência em Reúso de Água e professor da USP, é preciso continuar praticando economia de água e é necessário investir em reúso potável de água. Hoje, São Paulo faz reúso, mas em geral para aproveitamento de modo não potável, como para limpeza de áreas comuns e aproveitamento em descargas.

O pesquisador defende que é possível investir direto nas centrais de esgoto, promovendo um tratamento avançado com membranas de ultrafiltração, osmose reversa, ultravioleta e carvão biologicamente ativado e devolução direto para a rede de água. “Temos de parar de importar água de bacias fora de São Paulo, como nas grandes obras de transposição dos rios Paraíba do Sul e São Lourenço que estão previstas pelo governo do Estado”, afirma.

A sustentabilidade do sistema vai vir com conservação de água e o reúso não potável e potável, que é à prova de seca.”

Ivanildo Hespanhol

Segundo ele, essa ação tem a vantagem de ser mais barata. Hespanhol ainda investiga quanto seria um sistema de injeção direta na rede, mas estima que com metade do valor previsto para a obra das duas adutoras citadas (que de acordo com o governo do Estado é de R$ 2,8 bilhões*) seria possível fazer isso.

O pesquisador já fez um estudo com o reúso de água potável indireto que foi calculado em R$ 1 bilhão. Esse processo consiste em duas etapas: depois do tratamento feito na central de esgoto, a água é levada por adutora para um reservatório e lá passa por um segundo tratamento. Mas nesse processo há o custo da adutora, que segundo ele representa 2/3 do valor total da obra. No trabalho foi considerado o tratamento de 10 m³/s na estação de Barueri. Essa água seria transportada por adutora até o reservatório de Atibainha, novamente tratada e então jogada na rede.

Ele defende que o processo direto seria mais simples. Apesar de demandar mais etapas de tratamento, o custo economizado por não precisar de adutora pode ser investido nesses processos de filtragem.

“As autoridades ainda não reagem muito bem ao reúso potável, e a população tem um certo preconceito, acha que é água que vem do esgoto, mas isso é meramente uma questão de convencimento. Outros países, como África do Sul e Austrália, têm feito isso com sucesso. Temos tecnologia para tratar a água e certificar sua qualidade”, diz.

Ação pública. A Prefeitura de São Paulo disse que para aumentar a resiliência da cidade às chuvas têm trabalhado em obras de macrodrenagem. Segundo Pedro Algodoal, superintendente de projetos viários da Secretaria de Infraestrutura Urbana e Obras, foi licitado um conjunto de obras em seis bacias que, tradicionalmente, apresentam os maiores problemas. No Ipiranga, na zona sul, devem ser construídos dois piscinões e ampliação do canal, no Aricanduva, na zona leste, também dois piscinões e em Perus, na zona oeste, um parque linear. Somente as obras do Aricanduva já começaram.

“Onde dá pra ter parque linear é o ideal, porque retém a água das chuvas e preserva a várzea. Mas em bairros centrais, como o Anhangabaú ou Ipiranga não tem jeito. Para colocar parque no entorno dos córregos teria de desapropriar as avenidas Ricardo Jafet e Abraão de Moraes inteiras, o que não dá. Então tem de fazer piscinão”, diz Algodoal.

Já o Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) do Estado disse, por meio de nota, que prevê recuperar e preservar 75 km de várzeas do Rio Tietê, fazer pôlderes nas marginais e desassorear o Tietê. Prometeu ainda, entrou outros piscinões para a região metropolitana, entregar em outubro o Guamiranga, na Vila Prudente, na zona leste de São Paulo. A obrainiciada em 2012, terá a capacidade de reter 850 mil metros cúbicos de água de chuva.

* Erramos: Após a publicação desta reportagem, a Secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos do Estado informou que o custo das duas obras está estimado em R$ 2,8 bilhões. Originalmente estava escrito R$ 5 bilhões.