Soja com floresta vale mais do que sem

Soja com floresta vale mais do que sem

Giovana Girardi

17 Março 2014 | 13h35

Conservação ambiental se opõe à produção de alimentos? O dilema é antigo, mas nem por isso foi superado. É o que pautou as discussões em torno da mudança do Código Florestal no Congresso, e é o que está por traz de projetos para reduzir unidades de conservação e terras indígenas. Pesquisadores da área e ambientalistas têm na ponta da língua o discurso de que manter as florestas é importante não só para garantir a existência da biodiversidade, como para manter serviços ambientais que são importantes para a sociedade como um todo – inclusive para a própria agricultura.

Há anos cobrindo o tema, e ouvindo esse tipo de resposta, sempre perguntei a cientistas que estudam o tema como seria possível traduzir em números essa explicação. Dar ao agricultor uma resposta que ele possa compreender: se você não preservar, vai perder tanto. Bem verdade que já existem algumas iniciativas bem interessantes na academia nesse sentido, mas pouca coisa exatamente com essa pegada. A verdade é que a ideia de colocar um valor na biodiversidade e nos serviços que ela presta envolve cálculos complexos e controversos.

Um trabalho inédito conduzido pela ONG Conservação Internacional oferece uma abordagem nesse sentido. Trata-se de uma versão do estudo internacional Teeb (Economia dos Ecossistemas e Biodiversidade), elaborado pelo economista indiano Pavan Sukhdev em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Ambiente (Pnuma). No Brasil, a proposta de valorar os impactos da produção agrícola em comparação com os serviços ambientais – ou o “capital natural” – foi aplicada em dois estudos de caso, com a Natura e a Monsanto (veja aqui reportagem publicada hoje no caderno Economia e Negócios).


O grupo fez uma comparação do valor ambiental das diferentes práticas agrícolas na produção de óleo de palma (dendê) e de soja, a partir de estudos-pilotos nas plantações das duas empresas.

No caso da Natura, eles compararam o valor ambiental de trabalhar com a monocultura do óleo de palma versus o cultivo ser misturado a um sistema agroflorestal, integrado com árvores como cacau e maracujá. Já na Monsanto, a monocultura da soja sem respeito ao Código Florestal foi comparada com uma mistura de 80% de soja com 20% de floresta nativa do Cerrado.

Nos dois casos houve ganhos. No primeiro, o valor do capital natural – calculado pela diferença entre os impactos ao ambiente e à sociedade pelos ganhos prestados pelos serviços da florestal – foi três vezes maior que versão “business as usual”. No segundo, o ganho foi de 11%.

O bacana é que dessa vez não foi só um ambientalista ou um ecólogo ou biólogo da conservação falando isso. Foram as próprias empresas se dispondo a medir seu impacto e medir os custos de uma alternativa mais sustentável. É o início de um caminho interessante para obter resultados mais concretos. Resta ver se elas vão realmente aplicar o modelo novo em detrimento do velho “business as usual”.

Os resultados serão divulgados em um seminário em São Paulo nesta terça-feira, 18.