Segunda semana começa com ‘afronta’ da Cúpula do Carvão

Segunda semana começa com ‘afronta’ da Cúpula do Carvão

Giovana Girardi

17 Novembro 2013 | 16h49

Faixa de protesto contra carvão na manifestação de sábado

“Eu não consigo entender como um país que tem a maior parte da sua energia proveniente de carvão pode abrigar um evento de clima.” A frase de um líder comunitário que combate a indústria do carvão na Polônia reflete o sentimento não só de uma parcela da população e de ambientalistas, como também de negociadores presentes à Conferência do Clima da ONU, que reúne 195 países e ocorre até o final desta semana na capital Varsóvia.

Toma corpo no país o movimento “Desenvolvimento sim, minas de carvão, não”, uma coalisão de prefeitos, ONGs locais e internacionais, que denunciam impactos sociais e ambientais do uso do minério, pedem mudanças no investimento energético do país e na legislação proveniente do período comunista, que permite a expropriação de qualquer terra onde sejam encontrados depósitos de carvão.

A dependência econômica do combustível fóssil — o maior contribuinte para as emissões de gases de efeito estufa do planeta — e a pouca disposição do país de permitirir que a União Europeia, como grupo, assuma metas mais ousadas de cortes de emissões depois de 2020 foram algumas das críticas que mais circularam pelas corredores, salas e plenárias improvisadas dentro do Estádio Nacional de Varsóvia, construídas com suporte financeira da indústria do carvão.


Na semana que começa, o assunto deve ganhar uma proporção ainda maior com a realização simultânea à COP da Cúpula Mundial do Carvão, vista por muitos como uma afronta ao evento climático.

Questionado sobre isso, o presidente da conferência, Marcin Korolec, ministro do meio ambiente polonês, disse que este é só mais um dos “vários eventos que estão ocorrendo ao mesmo tempo” e “que é algo paralelo e não parte do quadro da COP”.

Disse também à imprensa que o país tem algo a mostrar ao mundo. “No primeiro período do Protocolo de Kyoto reduzimos 32% das nossas emissões, enquanto nosso PIB cresceu 200%.” Os dados, porém, são contestados por ambientalistas, que dizem que a redução de emissões só ocorre por conta de reajustes após o colapso do bloco comunista, mas não porque tenha havido mudanças estruturais na forma de lidar com energia no país.

A secretária executiva da Convenção do Clima da ONU, Christiana Figueres, que organiza a realização da COP, ficou em uma saia justa ao ser convidada para falar na cúpula do clima e recebeu cartas e pedidos de ONGs para que ela se manifestasse contrariamente e não fosse ao evento, pedido que ela polidamente rejeitou.

“Eu compartilho a preocupação, mas também acredito que é meu dever falar sobre isso”, escreveu Christiana às ONGs. “É precisamente por isso que eu vou falar diretamente com uma indústria que precisa mudar rapidamente e precisa escutar as razões de por que ela tem de fazer, se quiseremos alcançar os objetivos da convenção.”

Para a cúpula do carvão estão programados vários protestos que prometem trazer um pouco de calor a essa gélida — não somente no sentido figurado — conferência.

A viagem é um convite da Convenção do Clima da ONU (UNFCCC)