Renováveis têm potencial para crescer 47% até 2050 e reduzir emissões em 60%

Renováveis têm potencial para crescer 47% até 2050 e reduzir emissões em 60%

Giovana Girardi

27 Agosto 2013 | 20h15

Crédito: WILTON JUNIOR/ESTADÃO

Com a redução das emissões de gases de efeito estufa no Brasil por conta da queda na taxa de desmatamento da Amazônia nos últimos anos, a atenção para a contribuição do País às mudanças climáticas se volta para o setor energético. A estimativa oficial de emissões nacionais para as próximas décadas mostra que a área vai ser a que mais vai contribuir (aqui no blog do colega Herton Escobar) e, por enquanto, o governo federal não apresentou nenhum plano a longo prazo sobre como pretende minimizar essa participação.

Um estudo divulgado hoje pelo Greenpeace mostra que se for usado o potencial que o Brasil tem para fontes renováveis de energia – em especial eólica, solar e de biomassa – e  forem adotadas medidas de maior eficiência energética, seria possível cortar 60% dessas emissões até 2050. A comparação é feita com o chamado cenário de referência, que estima como seria a matriz energética do País se continuarem sendo adotadas ações semelhantes às planejadas pelo governo federal para os próximos anos. Nesse caso, a emissão do setor seria de 777 milhões de toneladas de CO2. No cenário da revolução energética proposto pelo Greenpeace, a emissão seria de 312 milhões de toneladas.

O trabalho propõe que o Brasil tem potencial de chegar a 2050 com uma matriz energética com 66,5% de participação de fontes renováveis, presença 47% maior que a observada hoje.  A análise considera pela primeira vez o uso de energia como um todo, não só pelo setor elétrico, mas também pelos setores de transportes e industrial. Se for isolada a matriz elétrica, a participação de renováveis, de acordo com o estudo, pode chegar a 92%. O estudo pode ser visto na íntegra no site da ONG.

Os pesquisadores trabalharam com projeções de crescimento da economia e da população para calcular de quanto deve ser a demanda de energia do País para daqui 40 anos e qual a participação cada tipo de fonte pode ter na matriz – com base no seu potencial, na sua viabilidade econômica e na forma como o mercado tem se movimentado, independentemente de ações do governo.

A ideia, explica Ricardo Baitelo, coordenador da campanha de Clima e Energia do Greenpeace no Brasil, é não só reduzir a porcentagem de participação dos combustíveis fósseis, mas também das hidrelétricas, que hoje respondem por 88,8% da matriz elétrica do País, de acordo com dados de 2012 da Empresa de Pesquisa Energética.

Essa porcentagem deixa o Brasil na confortável posição de ter a produção de energia mais limpa do mundo, mas deixa aberta uma brecha para que o País recorra às termelétricas – fontes sujas, que emitem grande quantidade de gases de efeito estufa – quando há um forte período de seca que reduz o volume de água nos reservatórios. A cada ano, o País vêm ligando as termelétricas por mais tempo, chegando, neste ano, por exemplo, a um custo com elas 50% superior ao previsto.

No cenário de referência, se o modelo brasileiro seguir no ritmo atual de investimento em energia, as hidrelétricas responderiam por 54,4%; as termelétricas a gás natural por 23%, as eólicas por 7,6% e a solar não chegaria a 2%. Aproveitando melhor o potencial que o País tem para as renováveis, a participação das hidrelétricas poderia cair para 39,6%; a das eólicas subir para 21,1%; a da solar para 23% e a das térmicas cair para 6,5%.

O estudo calcula que mesmo sendo necessário um investimento inicial de pelo menos R$ 690 bilhões a mais do que o governo já vinha planejando gastar com energia para atingir esse cenário, ele pode gerar uma economia de R$ 1,11 trilhão até 2050 na comparação com o cenário padrão.

A economia vem do fato de que, uma vez instalada a infraestrutura, a energia com base na natureza é muito mais barata do que comprar combustível fóssil. Por outro lado, apontam os pesquisadores, o dinheiro investido fica na própria região e no País e há uma geração de 15% a 20% mais empregos.

“Uma matriz mais diversificada é a chave da estabilidade”, afirma Baitelo, se referindo à instabilidade hoje das próprias hidrelétricas e, na verdade, de qualquer matriz que se baseie em fonte única. Solar jamais poderia ser sozinha, eólica ocorre com mais frequência, mas também não seguraria o País. Mas uma base de energia montada em eólica, solar e hidrelétrica se complementando tornaria o sistema mais seguro, explica o pesquisador. “No começo a revolução é mais cara, mas depois fica bem mais barata”, diz.