‘Recuperar Rio Doce pode alavancar agenda nacional de restauração’

‘Recuperar Rio Doce pode alavancar agenda nacional de restauração’

Roberto Waack, presidente da Fundação Renova, criada para gerir os programas de reparação, restauração e reconstrução das regiões impactadas pelo rompimento da barragem de lama da Samarco, conta em entrevista ao Estado qual é o tamanho do desafio e como pretende lidar com ele

Giovana Girardi

24 Outubro 2016 | 05h00

Com uma vasta experiência em resolver conflitos e fazer dois lados por muitas vezes opostos, como ruralistas e ambientalistas, chegarem a um denominador comum, o biólogo Roberto Waack assumiu talvez o maior desafio de sua carreira: lidar com o “um ano depois” do maior acidente ambiental do Brasil, o rompimento da barragem de lama da Samarco em Mariana (MG).

Waack, de 56 anos, é o presidente da Fundação Renova, organização independente criada para implementar os programas de reparação, restauração e reconstrução das regiões impactadas pelo rompimento da barragem.

Roberto Waack, presidente da Fundação Renova, é biólogo e mestre em economia. Fundador da Amata (empresa de madeira certificada), foi membro dos conselhos de Forest Stewardship Council (FSC), WWF e Global Reporting Initiative (GRI) e de empresas dos setores florestal e de agronegócios. É uma das lideranças da Coalizão Brasil, Clima, Florestas e Agricultura, movimento multissetorial com mais de 130 integrantes

Roberto Waack, presidente da Fundação Renova, é biólogo e mestre em economia. Fundador da Amata (empresa de madeira certificada), foi membro dos conselhos de Forest Stewardship Council (FSC), WWF e Global Reporting Initiative (GRI) e de empresas dos setores florestal e de agronegócios. É uma das lideranças da Coalizão Brasil, Clima, Florestas e Agricultura, movimento multissetorial com mais de 130 integrantes

O acidente, que completa um ano no próximo dia 5, deixou 18 mortos, um desaparecido e um rastro de destruição entre Bento Rodrigues, subdistrito de Mariana (MG) onde ficava a barragem do Fundão, até a foz do Rio Doce, no litoral do Espírito Santo.

Originada após um termo de ajustamento de conduta entre a Samarco, com apoio das acionistas Vale e BHP Billiton, e os governos federal e estaduais de Minas Gerais e Espírito, além de diversos órgãos e agências federais e estaduais, a fundação vai gerir uma verba de R$ 11 bilhões com a missão de recuperar e compensar comunidades e recursos ambientais ao longo dos próximos dez anos.

À fundação cabe desde construir novas casas para as famílias desabrigadas a fazer planos de saneamento, reconstruir as cidades, recompor o agronegócio, restaurar fauna e flora, e cuidar da questão social, como fazer o cadastramento das vítimas para fins de indenização.

Para Waack, é uma oportunidade que vai além de resolver o estrago na região. “Acho que temos a possibilidade de alavancar uma agenda que vai muito além do Rio Doce, que é nacional”, disse em entrevista ao Estado.

Ele se refere à necessidade de restaurar a vegetação das propriedades rurais ao longo do rio, como uma forma de ajudar a recuperar o corpo d’água que foi tomado pela lama. Replantio de florestas desmatadas ilegalmente e de matas ciliares é também uma exigência do Código Florestal e uma das metas mais difíceis que o Brasil assumiu junto ao Acordo de Paris, de combate às mudanças climáticas: restaurar 12 milhões de hectares.

Waack acredita que a partir do momento em que se conseguir recuperar as margens do Rio Doce, será possível ganhar escala para tomar medidas similares em outros cantos do Brasil.

E esse modelo de gestão da crise, também espera ele, poderá servir de exemplo para desastres naturais que o Brasil possa vir a enfrentar no futuro.

Veja a seguir alguns trechos da entrevista.

A Fundação Renova assume o trabalho de compensação e restauração quase um ano depois do acidente com quais desafios?
Temos três agendas prioritárias. Uma é emergencial: tem de tirar a lama do rio, terminar a contenção, construir novos diques, continuar a dragagem. Cerca de 1/4 da lama desceu o rio, mas 3/4 ainda estão na região, a até 100 km do local de origem. Tem de dar um destino para ela. Essa é uma frente de engenharia, de curto prazo, que termina no meio do ano que vem. A segunda é uma frente de inteligência, que é como lidar com a restauração do rio inteiro, recompor pesca, etc. É um campo de fronteira de conhecimento sobre como é que se restaura, e de conexão com a sociedade que mora ali, com o agronegócio, com o pequeno e o médio produtor, que sempre teve problema em atender o Código Florestal e agora se questiona: ‘só porque teve a ruptura da barragem agora eu vou ter de fazer isso?’. O terceiro grande desafio é o de governança. São 39 municípios, dois Estados, a federação com o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais), o Instituto Chico Mendes (de Conservação da Biodiversidade), a Funai, o DNPM (Departamento Natural de Produção Mineral), o Ministério Público, os tribunais de contas, a Agência Nacional de Águas. Todo mundo interessado em soluções, com a expectativa de usar esse recurso, mas esse recurso não pode ser mal gasto.

Qual deles é o mais difícil?
Não me assusta o primeiro, acho que a engenharia vai dar conta. O desafio da governança é monstruoso e acho que é o mais difícil. Mas se der certo vai ser um exemplo emblemático de restauração não só de um desastre causado pelo homem, mas para desastres ambientais que vêm pela frente, que a gente sabe que vai ter. Por exemplo, se depois do acidente de Petrópolis e Teresópolis (deslizamentos de terra após fortes chuvas em 2011) tivesse tido um modelo de gestão, não teria acontecido o que aconteceu, que o dinheiro sumiu e hoje continua do mesmo jeito que era antes do acidente. O desafio da restauração é parecido com o que estamos trabalhando na Coalizão (Brasil, Clima, Florestas e Sociedade, da qual Waack é um dos líderes e reúne mais de 130 organizações da sociedade civil e do setor produtivo). Tem a ver com conciliar, ouvir, envolver o agronegócio, exatamente o desafio da coalizão, com a diferença que tem o recurso, que é uma diferença substancial. O produtor só vai fazer isso se perceber que vale a pena do ponto de vista econômico. Esse repertório é o meu mundo.

É aí onde eu aposto e onde eu sonho. Ter uma organização com um recurso que não existe hoje no Brasil para cumprir a meta de recompor 12 milhões de hectares e a gente ainda não conseguiu convencer o mainstream econômico de que vale a pena investir nisso. Aí tem a possibilidade de alavancar uma agenda que vai muito além do Rio Doce, que é uma agenda nacional.

R$ 11 bilhões serão suficientes para tantas ações?
É o orçamento que temos. A fundação foi criada para garantir que esse recurso vai ser alocado da maneira mais eficiente possível do ponto de vista de custo, de prazo e de tecnologias usadas. Usar tecnologias mais avançadas, sustentáveis, é uma das regras do jogo. Então se é para fazer uma cidadezinha nova, vamos fazê-la com o que tem de mais moderno em termos de baixo carbono? Que seja autossuficiente em geração de energia, com todo o sistema de mobilidade, tratamento de efluente, coleta de água. Essa é a oportunidade.

A Samarco teve de adotar várias ações ao longo desse ano. Qual é a situação que vocês encontraram?
O esforço da Samarco foi emergencial, e emergencial pressupõe coisas que vão dar certo e coisas que não. A partir desse momento, a Fundação vai começar a ajustar essas coisas, absorver parte importante dessas ações começar a dar o tom de longo de prazo. Por exemplo, as indenizações. Foi feito um cadastro emergencial, com 8 mil pessoas, foi criado um cartão e essas pessoas começaram a receber o dinheiro, imediatamente. Esse cadastro não é perfeito. Já estamos vendo isso. Muita gente que está lá e não devia e muita gente que devia estar lá e não está. Agora a Fundação está fazendo um cadastro mais consistente, mais abrangente, que vai levar um tempo para ser terminado, para as indenizações de longo prazo. Na emergência se deu um cartão de, sei lá, mil reais por mês. ‘Não sei se você tinha 5 ou 50 bois, mas está aqui mil reais.’ Mas agora começa a olhar: tinha 50 bois, 30 morreram, seu pasto foi embora, esse é um processo que vai levar mais tempo. Devemos chegar a 20 mil cadastrados. Tem a questão dos tributário, que depois depois do acidente, virou tudo mar de lama. Na emergência, a empresa foi lá e abriu um canal para resolver a erosão, devolver o curso da água, mas sem pensar como era o trajeto, as curvas. Agora a gente vai ter de reencontrar o lado mais natural do desenho do rio. Temos de terminar as ações emergenciais, estamos contratando planos diretores, por exemplo, para saneamento básico e temos muitas frentes de diagnóstico e de articulação, para entender como serão as ações de futuro. A questão dos reassentamentos está avançando, a relocalização da cidade já foi decidida, com participação das pessoas. Agora tem uma discussão de como vai ser a cidade, onde vai ser a igreja, a praça, a escola, isso tudo está sendo discutido.

O que o senhor acha que poderia ter sido feito diferente desde o começo?
A relação social, a forma como feito o diálogo. A conexão com o indivíduo impactado, a voz dele em todo o processo. Talvez pudesse ter sido feita de maneira diferente. Havia ali um monte de gente em uma situação terrível, um drama pessoal que a gente nem consegue imaginar, e ao mesmo tempo as soluções sendo feitas com a prefeitura, com a defesa civil. Há muitas críticas de que a comunidade não foi ouvida. Não sei se (a empresa) não ouviu, acho que até ouviu, mas talvez devesse ter sido feito de um modo diferente. Mas se perguntar como, naquela situação, não sei se faria diferente. A conexão com o indivíduo, o micro… talvez eu desse mais atenção a isso que ao poder instalado. E daria muito mais envolvimento a sociedade civil logo de cara. Que é onde acho que há mais chance de ter soluções menos erradas. Não vou dizer certas, não.

Mas num primeiro momento, as ONGs ambientalistas foram criticadas por demorarem a se manifestar, rolou uma saia justa.
Justíssima, mas acho que isso ocorreu porque rolou uma confusão. Havia duas pontas, uma mais ativista, que queria bater na cabeça de quem causou o problema, e uma outra ponta que queria solucionar o problema de quem sofreu e acho que todo mundo se embaralhou nessa história. Porque uma coisa é dizer: ‘Você, empresa, fez tudo errado’. E numa situação de confronto isso às vezes impede que a organização olhe para a solução. Sendo que a solução necessariamente passa por uma parceria com quem causou o problema, porque é ela que tem o recurso, conhece a região, tem os equipamentos. É difícil mesmo. Participar da solução não significa estar alinhado com quem causou o problema, mas é um conflito de interesse mal resolvido em várias organizações.

Na cabeça do ativista passa uma dúvida: ‘Vou trabalhar com dinheiro da empresa para a solução?’ Bom, é… Porque é esse o dinheiro que tem. Isso deu um nó na cabeça dos ativistas e para mim também é um nó. As pessoas perguntam: ‘Você vai se aliar a isso?’ Vou. Mas não é fácil. Mas tenho claro que o lado da fundação é o lado da solução, da reconstrução.

Nas semanas após o acidente, centenas, talvez milhares de pessoas comuns, pequenas ONGs foram para a região do Rio Doce dispostas a fazer alguma coisa. A fundação pretende integrar essa mobilização de algum modo?
Acho que toda a história da ruptura da barragem tem um quê de gatilho, de mobilização, de as pessoas falarem: preciso fazer alguma coisa. E isso vai desde jogar pedra na Samarco, na Vale, ou ir lá ajudar a tirar lama, alguma coisa as pessoas sentiram que precisavam fazer. Acho que as pessoas não conseguem mais simplesmente ignorar. Acho que integrar isso é fundamental. O centro, claro, é o indivíduo, a pessoa que sofreu, depois vem o entorno dele, as pequenas organizações que o cercam, como a associação de bairro, a associação de pescador, onde ele participa e onde consegue fazer eco a seu pedido. O terceiro são as organizações da sociedade civil que dão suporte para essas pequenas, porque elas bebem em fontes de tecnologia, de processos, então precisamos que estejam envolvidos justamente pela geração de conhecimento. O indivíduo e as pequenas organizações do entorno têm foco em execução. Sem passar por elas, ninguém – nem a fundação, nem ONG, nem governo – tem licença para entrar ali. O indivíduo é central, ele tem que querer fazer isso, mas como fazer está mais ou menos no terceiro nível. E num quarto nível vem governo. A ideia é inverter a pirâmide. Após o acidente, as ações começaram por esse nível, de tentar resolver primeiro com o governo, até chegar ao indivíduo. E a fundação opera de uma forma contrária. É mais complexo, mas achamos que é mais eficiente. Não adianta chegar na cidade falando que vai recuperar 3 mil hectares de floresta, de cima para baixo. O ponto de partida tem de ser o indivíduo. O que significa que vai levar mais tempo, precisar de mais paciência, mas acho que para ter legitimidade, não tem outra alternativa. E eficiência no longo prazo é isso.

É um desafio enorme diante de um problema dramático. O que fez o sr. aceitar isso?
Por que eu entrei? Ah, pelo amor de Deus, é legal! Se vai dar certo não sei, espero que dê.

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