Queimadas na Amazônia podem bater recorde neste ano

Queimadas na Amazônia podem bater recorde neste ano

Estudo da Nasa avalia impacto do El Niño na redução da umidade da floresta e estima o risco de queimadas; Estados como Mato Grosso e Para têm mais de 97% de chance de ter incêndios na estação seca, que começa em agosto

Giovana Girardi

01 Julho 2016 | 18h24

A Amazônia pode ter neste ano a pior temporada de queimadas de sua história. Reflexo do intenso El Niño que atinge o planeta desde o ano passado, a região vem sofrendo um ressecamento do solo que deve chegar ao auge quando a estação seca começar no próximo mês. É o que aponta um levantamento feito pela Nasa em conjunto com universidades americanas divulgado na última quarta-feira (29).

Queimada no Mato Grosso. Estado teve no mês de maio 10.275 focos. Tiago Queiroz / Estadão

Queimada no Mato Grosso. Estado teve no mês de maio 10.275 focos. Tiago Queiroz / Estadão

A análise leva em conta a temperatura da superfície do oceano Pacífico, que aumenta com a ocorrência do El Niño. De acordo com os pesquisadores, no ano passado ele foi a mais alta desde que esse monitoramento começou a ser feito, em 2001. Essa elevação, aliada a um aumento da temperatura também no Atlântico, reduz a quantidade de chuva que cai sobre a Amazônia.

Sem água suficiente, as árvores não conseguem manter a quantidade normal de evapotranspiração (que é a quantidade de água que retorna para a atmosfera em forma de vapor), reduzindo, assim, a umidade na atmosfera. Menos umidade na região significa vegetação mais seca, aumentando o risco de queimadas, explicam os pesquisadores.

A previsão é de pelo menos 92% de risco de fogo para a floresta, considerando a análise feita em 10 regiões. Pará e Mato Grosso lideram o chamado Índice Sazonal da Severidade de Fogo, com respectivamente 98% e 97% de chance de incêndios. No ano passado, o risco máximo era de 64% no Mato Grosso.

“Com as observações de satélite da Nasa, vimos que o forte El Niño de 2015 e 2016 deixou o sul da Amazônia mais seco no começo da temporada de fogo que em anos que tiveram secas severas, como em 2005 e 2010”, explica Douglas Morton, pesquisador da Nasa e um dos responsáveis pelo estudo.

Mesmo na temporada úmida, de janeiro a abril, o índice de queimadas na Amazônia já ficou acima do observado nos últimos 13 anos. Em fevereiro, por exemplo, no auge das chuvas, o Estado do Amazonas teve 3.469 focos de incêndio. A ocorrência mais alta para o mês antes dessa havia sido em 2004, com 250 focos. Em maio deste ano já havia saltado para 3.777 focos. O número mais alto antes desse tinha sido 265, em 2004.

No Pará, no mesmo mês, houve 3.601 focos, contra 1.425 em fevereiro de 2015, o recorde até então. Em maio deste ano, subiu para 4.171 focos. A maior incidência também tinha sido em maio do ano passado – 1.732. Só no Mato Grosso, no último mês de maio ocorreram 10.275 focos, ante 7.163 em 2004, o recorde anterior. Veja aqui todos os números desde 2001.

“Os dados mostram que a região já está rumo a uma temporada de fogo extrema em 2016”, resume Morton. “Duas condições levaram a isso. Por um lado, um atraso nas chuvas no Pará e no Amazonas permitiu que a temporada de fogo de 2015 continuasse em janeiro e fevereiro deste ano. Por outro lado, Mato Grosso e Santa Cruz, na Bolívia, tiveram um início precoce da temporada de fogo de 2016, com recorde de detecções em abril e maio.”

Agora, mesmo que o fenômeno perca força, já terá feito o estrago. “No ano passado o período seco foi forte e quando veio o período chuvoso, o El Niño ainda estava agindo e as chuvas não foram suficientes para abastecer os solos amazônicos, como normalmente acontece. Ou seja, já vamos começar a estação seca com déficit hídrico”, comenta Ane Alencar, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) especializada em incêndios florestais.

Fator humano. Ane lembra que em condições normais é muito rara a ocorrência de fogo natural na Amazônia. “Ecologicamente a floresta não precisa de fogo para se manter, diferentemente do que ocorre com o Cerrado. Se ele não pega fogo, algumas sementes não brotam. Mas a Amazônia é úmida, o fogo só chega naturalmente de 500 a mil anos. A cada 500 anos no mímino uma área vai pegar fogo naturalmente. Mas nós estamos mudando completamente esse regime natural de fogo quando deixamos a floresta menos úmida com a retirada de árvores, com o desmatamento, que deixa as bordas das matas mais secas. Tudo isso afeta o micro-clima e deixa a floresta mais suscetível ao fogo.”

Em vez de a cada 500 anos, a ocorrência de incêndios tem sido cada vez mais comum. Antes, lembra ela, o fogo acontecia somente quando o El Niño era extremo, agora outros eventos têm levado ao mesmo resultado. Em 2005 e 2010, por exemplo, quando a região sofreu secas marcantes, não havia El Niño, mas aquecimento das águas do Atlântico Norte. Em 2007, quando também houve grande seca associada a muitas queimadas, a influência foi uma corrente do Atlântico Sul mais quente. “Quando temos vários eventos extremos causados por fenômenos diversos, a chance de recuperação hídrica do sistema vai diminuindo”, afirma Ane.

A pesquisadora lembra que são necessárias três condições para o fogo de fato ocorrer: material combustível, fonte de ignição e condição climática. “Se a Amazônia sofre com El Niño e tudo fica seco, temos o material combustível e a condição climática, de ter uma seca. Mas se não tiver ignição, como alguém botando fogo, não vamos ter o incêndio. Então temos de reduzir ao máximo as fontes de ignição. Se não tiver esse controle, a chance de ter eventos catastrófico é muito grande”, diz.