Projetos de conservação tentam salvar papagaios

Giovana Girardi

30 Julho 2016 | 17h00

A habilidade de imitar a fala humana os transformou em vítimas clássicas do tráfico de animais no Brasil e para o exterior, e a perda de hábitat ajudou a colocá-los na lista de espécies ameaçadas de extinção no Brasil. No Ano do Papagaio, declarado em 2016 pela Sociedade de Zoológicos do Brasil, projetos de conservação tentam recuperar duas espécies de papagaios típicos da Mata Atlântica que estão sofrendo com a perda de alimento e de seus espaços favoritos para procriar.

Acostumados a viver em florestas densas e antigas, os papagaios de peito-roxo (Amazona vinacea) e de cara-roxa (Amazona brasiliensis) procuram ocos de árvores para fazer seus ninhos. Essas cavidades, porém, são típicas de árvores mais maduras e são justamente essas as que são alvo de extração madeireira. O papagaio-de-peito-roxo ainda tem um agravante. Sua comidinha favorita está também cada vez mais rara: os pinhões.

Um trabalho de monitoramento e pesquisa com o cara-roxa desde 1998 já conseguiu diminuir o impacto sobre a população e começa a dar resultados. Naquele ano, com análise somente sobre o litoral do Paraná, região onde se concentra a maior parte dos indivíduos, foram encontrados cerca de 5 mil.


Os pesquisadores da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental, responsáveis pelo censo, notaram a baixa presença de árvores com ocos e iniciaram um trabalho de construção de ninhos artificiais – caixas de madeira com um buraco – para que os papagaios pudessem ocupar, além de fazerem campanha para diminuir a captura dos bichos para a vida em gaiola.

No censo deste ano, já foram encontrados 6,5 mil na região. Somando com os que vivem no litoral sul de São Paulo, a população da espécie chegou a 8.380 papagaios. O trabalho de conservação conseguiu fazer com o papagaio-de-cara-roxa fosse retirado da lista de espécies ameaçadas que o Ministério do Meio Ambiente divulgou em 2014.

“É uma boa notícia, notamos um crescimento da população, mas ainda é uma espécie que precisa de cuidados. São menos de 10 mil indivíduos, mesmo considerando os que não conseguimos contar, e isso não é muito”, afirma a bióloga Elenise Sipinski, que lidera o trabalho.

Os animais são contabilizados nas chamadas áreas dormitório, onde eles passam a noite. E em geral eles passam esse tempo em áreas protegidas e mais preservadas. Mas a pesquisadora alerta que observou neste ano uma alta concentração de animais passando o dia nas planícies litorâneas de Pontal do Paraná e do Pontal do Sul para se alimentar. Esses regiões estão sendo cogitadas para a criação de novos portos. “Vai ocorrer uma enorme supressão de vegetação. Isso vai comprometer o papagaio-de-cara-roxa, diz.

Cadê o pinhão. Também bastante frequente na região sul do País, o papagaio-de-peito-roxo vem sofrendo com a perda de um hábitat diferente: as florestas de araucária. Encontrados na faixa que vai da Bahia ao Rio Grande do Sul, e também em Missiones, na Argentina, e no sudeste do Paraguai, eles têm uma preferência pela árvore típica das áreas de planalto mais frias e sua semente: o pinhão.

Por causa dessa larga abrangência, havia uma sensação entre pesquisadores de papagaios que se tratava de uma espécie bastante comum, fora de risco. Até que um casal de biólogos da Universidade de Passo Fundo (RS) liderou um esforço de contar os indivíduos. E veio o susto: eles são bem menos numerosos do que se imaginava.

Em toda essa região, foram encontrados neste ano somente 3.920 aves, sendo 93% no Brasil. Desses, 60% estão na serra catarinense, onde ainda resiste a maior porção de florestas de araucária do Brasil. Dois outros censos haviam sido feitos nos dois anos anteriores, mas em uma faixa menor. Agora foi monitorada mais de 90% da área de ocorrência do peito-roxo.

“Ficamos impressionados em como a população está extremamente pequena e ameaçada”, comenta o pesquisador Jaime Martinez, que coordenou o levantamento junto com a mulher, Nêmora Prestes. Pela lista vermelha de espécies ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), o peito-roxo é considerado “em perigo”.

O principal problema é a baixa oferta de araucária e de árvores para nidificar, assim como a captura da população local para colocar em gaiola.

Com apoio da Fundação Boticário, está sendo conduzido uma campanha de plantio da árvore, assim como de construção de ninhos artificiais. “No Rio Grande do Sul, eles desapareceram porque não praticamente não existem mais araucárias, cerca de 2%. O Paraná tem apenas 1% das florestas originais e teve no ano passado uma alta de desmatamento nessa região. Santa Catarina foi melhor, preservou 25%. Então, por tudo isso, avaliamos que o papagaio está em estágio de declínio e ainda deve cair mais. Porque mesmo plantando araucárias, ainda vai levar uns 15 anos para começar a produzir”, afirma.

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