Planeta pode aquecer 3,1°C se metas do Acordo de Paris não ganharem impulso

Planeta pode aquecer 3,1°C se metas do Acordo de Paris não ganharem impulso

Novo estudo reforça previsões anteriores e mostra que países precisam reduzir muito mais suas emissões de gases de efeito estufa se quiserem cumprir a meta de segurar o aumento de temperatura do planeta bem abaixo de 2°C

Giovana Girardi

29 Junho 2016 | 14h14

Quando foi fechado o Acordo de Paris, que prevê conter o aquecimento do planeta a uma temperatura bem abaixo de 2°C, com esforços para limitar em 1,5°C até o final do século, já se sabia que os compromissos dos países naquele sentido não seriam suficientes para alcançar a meta. Agora uma análise científica sobre esses compromissos não deixa dúvidas. Se apenas os planos nacionais forem adotados, o aquecimento médio pode ser de 2,6°C a 3,1°C até 2100 na comparação com a temperatura média de antes da Revolução Industrial.

Momento em que o Acordo de Paris foi fechado. Da esq. para dir.: Christiana Figueres, secretária executiva da Convenção do Clima da ONU, Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU, Laurent Fabius, ministro das Relações Exteriores da França e o presidente francês, Francois Hollande. Reuters

Momento em que o Acordo de Paris foi fechado. Da esq. para dir.: Christiana Figueres, secretária executiva da Convenção do Clima da ONU, Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU, Laurent Fabius, ministro das Relações Exteriores da França e o presidente francês, Francois Hollande. Reuters

É o que mostra estudo publicado nesta quarta-feira, 29, na revista Nature por uma equipe de dez cientistas de diferentes países, inclusive o Brasil. Números semelhantes já haviam sido propostos por pelo menos 10 outras análises feitas logo depois que as chamadas INDCs (Contribuição Nacionalmente Determinada Pretendida, na sigla em inglês) foram apresentadas pelos governos ainda antes da Conferência do Clima de Paris, realizada em dezembro.

As INDCs são o conjunto de compromissos que cada país disse ser capaz de adotar como contribuição ao esforço global de redução das emissões de gases de efeito estufa, que, em excesso, estão promovendo o aumento da temperatura do planeta e as mudanças climáticas.


Algumas nações, como o Brasil, os Estados Unidos e a União Europeia como bloco trouxeram metas absolutas de quantos porcento de suas emissões serão cortadas até 2030. Já a China, hoje o maior emissor de gases de efeito estufa do planeta, disse somente que vai reduzir sua intensidade de carbono, que é quanto do gás é emitido, por exemplo, por unidade de PIB gerada. Outros países condicionaram suas reduções ao recebimento de ajuda financeira.

Como são coisas não comparáveis, é preciso trabalharam com estimativas de quanto essas ações significariam na prática. Daí as projeções de outros trabalhos serem próximas, mas não iguais. O novo estudo considerou as chances de cada uma delas e chegou à conclusão que, mesmo se todos os compromissos forem cumpridos, há 50% de probabilidade de ficar nessa faixa de 2,6°C a 3,1°C.

Orçamento apertado. Os autores reconhecem que as INDCs trazem um ganho de redução de emissões em relação às políticas atuais que as nações já estão adotando. Hoje o mundo emite por ano cerca de 49 gigatoneladas de CO2-equivalente. Se os planos forem adotados integralmente, com todas as condicionantes resolvidas, no período de 2020 (quando o Acordo de Paris começa a valer) a 2030 (prazo da maioria das INDCs), eles vão levar a uma redução de 6,4 gigatoneladas na comparação com a quantidade de gases que haveria na atmosfera se apenas as ações já em curso continuassem sendo adotadas.

Mas, apontam os pesquisadores, elas claramente não são suficientes para cumprir a meta de ficar bem abaixo de 2°C. Para o plano de ficar em 1,5°C, as possibilidades são ainda mais baixas. Ocorre que o planeta está muito próximo de ter na atmosfera a quantidade de carbono compatível com essa temperatura. É o chamado orçamento de carbono, sobre o qual os pesquisadores também se debruçaram. Eles calcularam que em 2030, para ficar no caminho dos menos de 2°C, as emissões tinham de ser pelo menos 11 gigatoneladas (Gt) menor do que estarão se contarmos apenas com o cumprimentos de todas as metas atuais (em 52,6 Gt).

“O que nosso estudo reforça é que é preciso definir ações mais ambiciosas o quanto antes. Não vai dar para gastar o período de 2020 a 2030 para só ter ações mais ambiciosas depois”, afirma o pesquisador Roberto Schaeffer, professor de Planejamento Energético do Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Quando o Acordo de Paris foi fechado, os países já tinham noção disso e por isso concordaram que INDCs sejam revistas a cada cinco anos, com valores sempre readequados para cima, nunca para baixo. “Mas não vamos poder esperar o fim do período da INDC para começar a correr atrás”, alerta.

Ele afirma que para fechar a conta para menos de 2°C ou para 1,5°C em geral se considera a necessidade de adoção de tecnologias que ainda não estão firmadas, como de sequestro e captura de carbono (CCS ou BioCCS, que conta com biomassa). “Se dependemos disso, então está na hora de fazer isso começar a existir. Para ficar em 1,5°C seria necessário, logo depois de 2050, ter emissões negativas. Isso só vamos ter com BioCCS. Está na hora de acelerar tudo, inclusive o que não existe”, defende o pesquisador que participou da análise.

“O estudo é para chamar atenção mesmo. O pessoal saiu de Paris em clima de lua de mel, felizes por terem um acordo. E isso foi um excelente começo, mas tem de ir além. Ainda dá tempo, mas não pode jogar a toalha.”

Schaeffer faz ainda um alerta específico para o Brasil. “A INDC brasileira foi ambiciosa num outro cenário macroeconômico. Agora em crise, existe uma chance de o Brasil cumprir suas metas não por méritos próprios, mas porque a economia afundou. Nesse cenário, as emissões caem naturalmente porque o consumo de energia cai. Aí corre o risco de não fazer as ações necessárias, como ter mais energia eólica e menos térmica. Se fizer térmica achando que o jogo está ganho, vamos o problema que a gente chama de ‘trancamento tecnológico’ e fica mais difícil mais para frente se desvencilhar dele.”

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