Pesquisadores encontram nova espécie de anta na Amazônia

Pesquisadores encontram nova espécie de anta na Amazônia

Giovana Girardi

17 Dezembro 2013 | 13h01

Nova espécie encontrada na Amazônia. Crédito: Cortesia Fabrício Santos

Imagine se é possível um animal enorme como uma anta passar despercebido na natureza. Pois uma espécie da Amazônia conseguiu a proeza. Pela primeira vez desde 1865, um grupo de cientistas brasileiros publicou ontem a descoberta de uma nova espécie habitando a floresta no sul do Amazonas, em Rondônia e também a amazônia colombiana.

A Tapirus kabomani é a quinta anta já encontrada no mundo. E o primeiro grande mamífero terrestre da ordem Perissodactyla (formada por antas, rinocerontes e cavalos) encontrado em mais de cem anos.

Menor que a anta brasileira (Tapirus terrestris) – tem em média cerca de 110 quilos contra 320 kg da parente mais famosa –, era conhecida das tribos indígenas que habitam a região, mas só chamou a atenção da ciência recentemente.

O pesquisador argentino Mario Cozzuol, lotado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), foi quem resolveu investigar o bicho há mais de dez anos. “O curioso não é que ninguém nunca tinha visto a anta. Ela estava à vista de todo mundo, mas ninguém acreditava que era algo diferente”, afirma. “Caboclos e indígenas diziam isso. A gente resolveu levar a sério o que eles falavam.”

Do fóssil à espécie viva. Cozzuol é paleontólogo e em 2002, quando estava na Universidade Federal de Rondônia, orientou uma aluna a estudar uma anta fóssil. Para isso ela precisava comparar o fóssil com crânios atuais da espécie e um dos materiais que ela coletou, proveniente da região de Porto Velho, era um pouco diferente. “Parecia mais raro e daí começamos a investigar.”

Para isso foram feitas entrevistas com populações indígenas, ribeirinhas e caçadores, que relataram onde era visto o animal. Nesses locais foram colocadas armadilhas fotográficas, que flagraram o bicho.

“A espécie é nova para a ciência, mas todo mundo que vive o dia a dia da floresta reconhece a diferença. Visitamos uma tribo que guardava troféus – cipós onde amarravam os crânios dos animais caçados. E tinha cipó para veado, para anta, mas era um para cada espécie. Eles diferenciavam”, conta o biólogo Fabrício Santos, também da UFMG, que cuidou da análise genética da espécie.

A partir das imagens e de amostras de antas coletadas junto a essas populações e com caçadores – a própria equipe chegou a ter licença para caçar um exemplar, que agora está depositado na coleção da UFMG como referência –, foram feitos os estudos morfológicos e genéticos.

“Só o fato de ser menor não ajudava muito, porque a anta comum tem bastante variação de tamanho na natureza, assim como de coloração, que vai de cinza chumbo a rosada, então os cientistas em geral achavam que era só uma variante dela”, lembra Cozzuol.

Além do tamanho, foram observadas várias outras diferenças, como patas mais curtas, crânio diferente e cor mais escura – tanto que é chamada de “pretinha” pelas comunidades tradicionais. A anta comum também tem uma crina mais alta e testa mais estreita que a kabomani. “E essa espécie apresenta um dimorfismo sexual que a anta comum não tem. Os machos têm bochechas escuras, as fêmeas não”, explica o pesquisador.

Campos. Nas entrevistas feitas com moradores locais, os pesquisadores descobriram também que a espécie ocorre em regiões mais abertas, nos chamados campos amazônicos. “É uma coisa que preocupa, porque esses locais, como os campos de Humaitá, ao sul do Amazonas, estão virando plantação de soja ou de pasto para gado. As pessoas olham o campo natural e acham que não precisa preservar porque não é floresta e ele está desaparecendo”, diz Santos.

As coletas de espécimes foram feitas no Amazonas, em Rondônia e na Colômbia, mas há fotos da nova anta Peru, na Bolívia e no Amapá. “Isso indica que ela provavelmente ocorre em toda a Amazônia”, diz Cozzuol. “Nós suspeitamos até que muitos zoológicos em outros países tenha exemplares em cativeiro achando que se tratam da anta comum.”

A próxima etapa da pesquisa, que contou com financiamento da Fundação Boticário, é determinar realmente a distribuição da espécie e também seu status de conservação. A Tapirus terrestris é considerada vulnerável por causa de caça e desmatamento e os cientistas imaginam que o mesmo deve estar ocorrendo com a kabomani.

O nome que a nova espécie recebeu é uma referência a “Arabo kabomani”, que significa anta na língua Paumarí, uma das tribos que vive na região onde foi abatido o animal de referência. A descrição da espécie foi publicada ontem no periódico Journal of Mammalogy.