Passado da Amazônia mostra resiliência a pouca chuva

Passado da Amazônia mostra resiliência a pouca chuva

Estudo que avaliou 45 mil anos do hidroclima da região sugere que savanização da bacia pode não ocorrer em um futuro de aquecimento global caso ações como queimadas e desmatamento forem contidas

Giovana Girardi

11 Janeiro 2017 | 19h51

Uma investigação científica sobre a quantidade de chuva que caiu na Amazônia nos últimos 45 mil anos mostra que mesmo a porção que se acredita ser a mais propensa à savanização – o leste da região –, nunca chegou realmente a secar, nem mesmo durante o período mais seco da última era do gelo, entre 24 mil e 18 mil anos atrás.

A pesquisa, destacada na capa da revista Nature desta semana, sugere que o floresta pode igualmente ser resiliente a um futuro de aquecimento global. Mas isso só será possível se outras interferências humanas aos microclima, como desmatamento, queimadas e expansão da agricultura, sejam contidas, uma vez que elas têm o poder de reduzir a umidade do ar.

Capa da revista Nature destaca pesquisa sobre os 45 mil do hidroclima da região

Capa da revista Nature destaca pesquisa sobre os 45 mil do hidroclima da região

O estudo realizado por pesquisadores de Cingapura, Brasil, China e Estados Unidos analisou dados geoquímicos de oxigênio na caverna Paraíso, no Pará, uma das poucas cavernas da região que tem estruturas como estalactites e estalagmites (formações que descem a partir do teto ou sobem a partir do chão), de onde é possível retirar amostras para análise.


Liderados por Xianfeng Wang, do Observatório da Terra de Cingapura, os cientistas trabalharam com isótopos de oxigênio (variantes do elemento químico com diferentes massas), que são sensíveis à variação climática, e compararam com dados do oeste da Amazônia, de clima mais estável.

Assim, foi possível fazer uma viagem no tempo e mapear quanto choveu em diferentes períodos. Já havia uma suspeita de que a última era do gelo poderia ter sido seca, mas a dúvida era quanto e se havia sido o suficiente para promover uma savanização da floresta, explica Francisco William da Cruz Junior, pesquisador do Instituto de Geociências da USP e um dos autores do trabalho. A savanização da Amazônia é um dos temores que existe em relação ao aquecimento global.

Há cerca de 21 mil anos, com a temperatura 5°C inferior, a precipitação era de 58% dos níveis atuais e que no período de aquecimento que se seguiu, no meio do Holoceno (há 6 mil anos), foi para 142% sobre hoje.

O trabalho indica “que a bacia Amazônica nunca foi seca o suficiente na era do gelo nem em qualquer outro momento nos últimos 45 mil anos a floresta se transformou em uma savana”. Segundo os autores, a floresta persistiu mesmo quando a quantidade de chuva era de apenas cerca de 60% da atual.

Futuro mais quente. “Se nosso padrão observado das mudanças no hidroclima da Amazônia puder ser extrapolado para um futuro de aquecimento induzido pelo CO2, poderia se esperar que as chuvas nas terras baixas da Amazônia cresçam substancialmente”, escrevem.

“Ironicamente, no entanto, desmatamento continuado em expansão da agricultura na bacia, particularmente na região leste, assim como uma intensificação do El Niño, pode reduzir o ciclo de água através da transpiração das plantas.”

O estudo foi acompanhado de um artigo de opinião do pesquisador Mark Bush, do Instituto de Tecnologia da Flórida, um dos principais críticos da ideia de savanização, que viu nos resultados do trabalho um sinal de resiliência da floresta.

“Os dados trazem esperança de que a floresta amazônica será resiliente num mundo livre de fogo, mesmo se comunidades de espécies da floresta não forem”, escreve. “O melhor caminho para ganhar tempo em face das mudanças climáticas é promover um uso da terra que exclua o fogo. Ou climas desestabilizados vão levar rapidamente à degradação.”

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