O dia que me disseram que sou anormal

O dia que me disseram que sou anormal

(Ou por que é tão difícil conversar sobre o aquecimento global)

Giovana Girardi

08 Setembro 2015 | 08h33

No ano que passou, em que fiquei fora do dia a dia da redação do Estado para participar de um programa para jornalistas de ciência no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), nos EUA, um dos meus objetivos foi discutir e tentar entender por que a comunicação sobre mudanças climáticas parece não estar dando certo.

Homem se refresca como pode na Hungria em meio a onda de calor que atingiu a Europa no verão de 2013. Esse tipo de fenômeno pode ser cada vez mais frequente (Crédito: REUTERS/Laszlo Balogh)

Homem se refresca como pode na Hungria em meio a onda de calor que atingiu a Europa no verão de 2013. Esse tipo de fenômeno pode ser cada vez mais frequente (Crédito: REUTERS/Laszlo Balogh)

Anos de conhecimento científico acumulado e de alertas e mais alertas dos ambientalistas ainda não resultaram em uma ação integrada e efetiva de governantes e empresas contra o aquecimento global – a esperança agora está toda na Conferência do Clima de Paris, que acontece em dezembro, mas a ver o que vai sair de lá.

Há vários problemas nessa comunicação, inclusive no trabalho dos jornalistas (principalmente nos EUA, onde por muito anos – e em alguns casos até hoje -, as reportagens trataram a questão como não sendo um consenso entre cientistas). Veja bem, não existe dúvida nenhuma. É consenso. 97 em 100 cientistas afirmam que as mudanças climáticas estão acontecendo, são provocadas por ações humanas e vão piorar se nada for feito.

O ponto é que, em geral, o assunto não é recebido muito calorosamente – com o perdão do trocadilho – pelo leitor, por políticos ou pela população em geral.

Apesar disso, ao debater o assunto com especialistas em clima e em comunicação de clima nos EUA, achava eu, numa quase ingenuidade, que já havíamos alcançado ao menos uma consciência generalizada com o tema. Que, em geral, as pessoas pensam sobre o assunto. Foi quando veio o diagnóstico. “You are abnormal!”

Quem me disse isso foi Anthony Leiserowitz, do Projeto Yale em Comunicação sobre Mudanças Climáticas. Seu grupo há anos investiga a opinião pública norte-americana em relação ao tema e ele deu seu parecer a meu respeito com base nesse público.

Uma pesquisa que eles tinham divulgado em abril deste ano mostrou que o americano nem escuta nem fala muito sobre o assunto. Cerca de 40% dos entrevistados disseram ler ou ouvir algo sobre aquecimento global na mídia somente uma vez por mês. Uma fração muito menor – 19% – disse ter visto/ouvido algo pelo menos uma vez por semana. No diálogo do dia a dia, 16% disseram ouvir alguém que eles conhecem falando sobre o assunto uma vez por mês, e 4% relataram essa experiência uma vez por semana.

Fiquei impressionada na hora. Afinal, eu falo e penso sobre o assunto todo santo dia. Daí a conclusão: você não é normal!

Ok, eu já desconfiava. Ninguém no jornal, ou entre meus amigos (exceto outros jornalistas de ambiente) ou mesmo na minha família tem essa rotina. Também acho que são poucos que compartilham a noção – que não é só minha, mas de muita gente boa que tá nessa luta há muito mais tempo que eu – de que mudanças climáticas são o maior problema que a humanidade tem para enfrentar.

A boa notícia é que até o papa Francisco comprou essa briga. E o presidente dos EUA, Barack Obama, assumiu há pouco tempo exatamente esses termos. Mas nem por isso o assunto se tornou popular. Para deixar de ser anormal, só quando a maior parte das pessoas pensar assim. E como fazer isso?

Questão moral. O papa Francisco deu um caminho das pedras: mostrar que esse não é um problema só científico, ou ambiental, ou político ou mesmo econômico. Mas é um problema moral. É sobre a casa comum que todos dividimos e também sobre nós mesmos e nossos irmãos.

É um pronunciamento empolgante. Na verdade nunca imaginei que a comunidade científica e ambiental ficaria tão empolgada com um texto religioso. Mas ele fala sobre o que a ciência nunca conseguiu falar e os políticos falharam em dizer. A historiadora da ciência Naomi Oreskes, da Universidade Harvard, me falou sobre isso nessa entrevista que foi publicada na semana passada.

A esperança é que esse movimento possa de algum modo impulsionar as negociações climáticas em torno de um novo acordo global para a redução das emissões de gases de efeito estufa. O acordo tem de ser fechado na Conferência do Clima da ONU em dezembro, em Paris, e será válido para todos os países.

Para Leiserowitz, existe uma certa lacuna de esperança: pessoas não sabem o que podem fazer. Além disso, diz ele, é preciso conectar um problema que é visto como global, distante, como algo ligado ao dia a dia das pessoas, aos seus valores. Uma vez que o aquecimento foi informado como sendo uma situação global, parece que ele é um problema dos outros, não meu ou seu. E pior ainda, que não é para agora, mas só para o futuro.

Pesquisas feitas no Brasil mostram que o público brasileiro é um pouco diferente do norte-americano. Em geral as pessoas aqui se mostram mais conscientes e mais preocupadas com o que pode acontecer com a vida delas se o clima continuar mudando. Mas isso não impede que haja muitos pouco se lixando.

Há um sentimento de, digamos, egoísmo, que ainda é comum. Senti isso com os comentários que a entrevista com Naomi Oreskes recebeu no Facebook. A matéria começa com uma passagem do livro mais novo da historiadora: The Collapse of Western Civilization (O Colapso da Civilização Ocidental, ainda sem tradução para o português).

Apesar de ter se consagrado com seu livro-denúncia Merchants of Doubt (Mercadores da Dúvida), que descreve como um punhado de pessoas agiu por interesse de indústrias para desmerecer descobertas científicas, sua mais recente obra é uma ficção. Melhor dizendo, uma ficção baseada na ciência. Ela escreve de um futuro distante, 2393, lembrando o que houve para a sociedade ocidental colapsar em 2093. O cenário que ela propõe pode até não acontecer, mas parte de ciência robusta, de simulações que mostram como o clima do planeta deve se comportar se as emissões de gases de efeito estufa e a temperatura continuarem subindo.

Proliferaram comentários na linha: “F*-se, não estarei vivo mesmo em 2093.” E isso dá um desânimo de escrever sobre assunto tão complexo. Se é isso que as pessoas pensam, então a situação está perdida mesmo.

Vamos juntos? Mas só resolvi compartilhar tudo isso aqui pra dizer que estou de volta ao Brasil e à redação, com foco nessa conferência de Paris. Então, me perdõe quem não gosta, mas vou falar muito pelos próximos meses sobre mudanças climáticas. Do meu lado vou me esforçar para mostrar que esse assunto diz respeito a vida de todos nós e vou tentar, sempre que possível, trazer exemplos reais disso. Mas, pra quem não gostar, um convite: vamos pensar juntos? Quem tiver dúvidas ou ideias ou críticas, compartilhe aqui. E me diga que tipo de notícia sobre esse tema você gostaria de ver.

Até a próxima.