Nova espécie de sapo é descoberta por cientistas em São Paulo
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Nova espécie de sapo é descoberta por cientistas em São Paulo

Animal, de apenas 3 cm e que era confundido com outra espécie, é endêmico da Serra do Mar e pode ser encontrado no extremo sul da capital; veja fotos e ouça o canto dos dois pequenos anfíbios

Giovana Girardi

12 Junho 2017 | 06h00

Correções: 12/06/2017 | 17h00

Exemplar de Hylodes caete, nova espécie de sapo descoberta na Serra do Mar. Crédito: Leo Malagoli

No extremo sul da cidade São Paulo, a apenas 60 km do centro, onde remanescentes de Mata Atlântica da Serra do Mar resistem à expansão urbana, a natureza continua reservando surpresas. Uma nova espécie de sapo, de apenas 3 cm, acaba de ser descrita habitando a região. Trata-se de uma nova rãzinha-de-corredeira.


O achado passou despercebido aos olhos da ciência por muitos anos. Imaginava-se que a rãzinha era membro de outra espécie já conhecida, a Hylodes phyllodes, apesar de ela ser bem menor. Elas eram catalogados juntos em coleções de museus.

Na coleção do Museu de Zoologia da USP, as duas espécies estavam num mesmo frasco. Os três maiores são da nova espécie (Hylodes caete), o menor é um Hylodes phyllodes.
Crédito: Leo Malagoli

Ainda nos anos 1990, o animal chegou a chamar a atenção do biólogo Célio Haddad, da Unesp de Rio Claro, um dos maiores especialistas em anfíbios (herpetólogo) do Brasil. Durante trabalho de campo na região de Paranapiacaba, um exemplar da nova espécie pulou em meio aos outros animais bem à sua frente. “Vi que era algo que não batia com nada que a gente conhecia”, conta. Mas como era apenas um indivíduo, não foi possível fazer uma descrição.

Caberia a um aluno de Haddad, o também biólogo Leo Malagoli, que faz doutorado na instituição, desvendar o mistério, num trabalho que, desde a primeira observação, levou mais de dez anos. Na semana passada, um artigo descrevendo o Hylodes caete foi publicado na revista científica Herpetologica. Caete faz uma referência às matas maduras que existem nas franjas da cidade, onde a espécie vive e se reproduz.

Investigando a diversidade de espécies de anfíbios em São Paulo – levantamento dele anterior havia mostrado que pelo menos cem espécies já foram identificadas aqui e cerca de 80 ainda ocorrem na metrópole –, Malagoli se deparou com o sapinho diferente na parte paulistana do Núcleo Curucutu do Parque Estadual da Serra do Mar, ao sul de Parelheiros.

Exemplar de Hylodes phyllodes, o primo já conhecido. Crédito: Leo Malagoli

Canto novo. Além de maior (3,1 cm em média contra 2,8 da espécie-prima) e com uma coloração mais escura, o que o entregou foi seu canto peculiar. “Como as duas espécies ocorrem juntas no campo, o canto começou a me chamar atenção. Vi os dois lado a lado e pensei: quem é esse outro que está cantando assim tão diferente?”, conta Malagoli.

O áudio, que pode ser escutado abaixo, não deixa dúvida. Num bate-papo com o H. phyllodes, o H. caete parece falar uma outra língua. Mas os dois devem se entender, porque ficam lá cantando, um em resposta ao outro.

A prova final viria com análises moleculares, que mostraram que geneticamente os bichos são mesmo diferentes. Além do exemplar paulistano, a rãzinha também foi coletado na porção de Itanhaém do núcleo Curucutu; no núcleo Itutinga-Pilões do mesmo parque da Serra do Mar, em São Vicente; e no Parque Natural Municipal Nascentes de Paranapiacaba, em Santo André.

Na pesquisa, feita com colegas da Unesp e da Universidade Federal do Rio, sob orientação de Haddad, os autores descrevem a espécie como endêmica da Serra do Mar, relacionada às encostas e riachos encachoeirados, a mais de 700 metros de altitude, e de hábitos diurnos, ao contrário da maioria dos anfíbios.

A descrição também é importante porque acrescenta mais uma espécie ao pequeno grupo de anfíbios que apresentam uma estrutura curiosa no polegar: um tubérculo nupcial, que provavelmente funciona para estimular a fêmea. Segundo Malagoli, até o momento apenas três espécies eram conhecidas com essa estrutura, entre elas a H. phyllodes. Agora são quatro.

Conservação. “A gente tem a ilusão de que a Mata Atlântica é bem conhecida, mas esse estudo traz mais uma evidência de que mesmo em áreas já bem estudadas, ainda há muita coisa que não sabemos. Está cheio de espécie sem nome na Mata Atlântica e provavelmente extinguimos um monte antes mesmo de conhecê-las. Muitas, quando descobrimos, já estão ameaçadas”, comenta Haddad.

Ele destaca que ainda é mais surpreendente saber que o animal vive na área do município de São Paulo. “É incrível que uma cidade desse tamanho, com tanta poluição, tenha essa riqueza no seu entorno. E mais incrível que a população não saiba dessa riqueza. A mensagem que passa é: no século 21, ainda estamos descobrindo novas espécies em megalópole. É preciso mais que nunca falar em conservação.”

Correções
12/06/2017 | 17h00

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