‘Mudanças climáticas ainda são questão de segurança nacional nos EUA’

‘Mudanças climáticas ainda são questão de segurança nacional nos EUA’

Especialista em defesa, o pesquisador americano John Conger afirma que, apesar de o presidente Donald Trump desprezar discussões em torno do aquecimento global, o tema ainda é tratado como uma questão de segurança nacional pelo Departamento de Defesa – principalmente por seu potencial impacto no poderio militar. Mas tem sido necessário deixar a expressão de lado para poder lidar com seus danos

Giovana Girardi

17 Maio 2018 | 06h30

Desde que Donald Trump assumiu a presidência dos Estados Unidos, entre os muitos assuntos que eram caros à gestão anterior de Barack Obama e foram minimizados, talvez nenhum tenha sido tão desprezado quanto o combate às mudanças climáticas.

Mas em uma área muito específica desse front, a preocupação, em algum grau – mesmo que menor –, se mantém: o risco que o clima alterado pode trazer para a segurança nacional do país, em especial para o seu poderio militar em áreas que podem ser afetadas pelo aumento do nível do mar ou derretimento do gelo.

O especialista em impacto das mudanças climáticas sobre a segurança nacional, John Conger. Crédito: Departamento de Defesa dos EUA

É o que vem defendendo o pesquisador John Conger, diretor do Centro de Clima e Segurança (CCS), a fim de tentar acalmar um pouco a comunidade internacional. Formado em Aeronáutica e Astronáutica pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e analista de defesa, ele foi consultor do Departamento de Defesa (DoD) dos Estados Unidos e, anteriormente, atuou por 12 anos com equipes legislativas do Congresso americano.

Conger vem ao Rio nesta sexta, 18, participar do Encontro Internacional sobre Clima e Segurança, promovido pelo Instituto Clima e Sociedade (ICS). O evento vai discutir os riscos de segurança relacionados ao clima do ponto de vista internacional e geopolítico, mas também de uma perspectiva nacional.

A preocupação é que o aumento do nível do mar e de eventos extremos, como secas e tempestades, possam piorar conflitos sociais e políticos e servirem como um gatilho para aumentar a instabilidade. Em entrevista exclusiva ao Estado, Conger conta como o problema é visto pelos Estados Unidos.

Para ele, numa tentativa de evitar estresse com a Casa Branca, os militares estão suavizando as palavras e evitando dar o nome aos bois. Mudança do clima é uma expressão que saiu dos documentos e discursos, mas nem por isso deixa de ser enfrentada. Até porque pode colocar em risco bases militares espalhadas pelo mundo.

“Nos EUA, quando um tomador de decisão fala sobre segurança nacional, ele frequentemente está falando sobre força militar. Então as implicações das mudanças climáticas nos Estados Unidos sobre as Forças Armadas são muito significativas, porque o poder militar é construído em cima de uma enorme infraestrutura. Estamos falando em algo avaliado em torno de US$ 1 trilhão em infraestrutura em todo o mundo. E muito disso está alocado ao nível do mar”, explica.

Leia a entrevista completa a seguir.

É possível dizer que as mudanças climáticas já estão piorando conflitos sociais e políticos no mundo? Ou já é um fator de aumento da instabilidade?
Eu acho que é possível pontuar vários examplos de mudanças climáticas e impactos que ajudaram a promover instabilidade. O exemplo mais normalmente citado é o da Síria, onde certamente já havia ingredientes de instabilidade. Mas questões como seca severa, perda de empregos na agricultura, migrações internas para centros urbanos e uma grande massa de indivíduos desempregados que se juntou a uma outra massa grande de refugiados da guerra do Iraque criaram uma situação pior, que exacerbou a instabilidade que já estava lá. Nós normalmente não dizemos que as mudanças climáticas causam o problema, mas normalmente deixam uma situação ruim ainda pior. Ao redor do mundo, vemos vários locais com estresse hídrico, insegurança alimentar, deslocamento econômico por aumento do nível do mar ou perda de recursos hídricos. É o caso do Lago Chade (entre Chade, Camarões, Niger e Nigéria, na África), um outro exemplo frequentemente citado. Lá o lago secou e gerou deslocamentos econômicos, de empregos e de atividades econômicas que dependiam do lago. Também vemos deslocamentos por aumento do nível do mar em Bangladesh, onde havia muitas regiões agrícolas perto da costa, ao nível do mar. Como ele tem subido, vemos impacto em algumas culturas e o país começa já a esperar uma quantidade significativa de migrações internas e deslocamentos nos próximos 10 ou 20 anos. O governo de Bangladesh está trabalhando pesado para garantir que isso não resulte em problemas críticos de intabilidade. Eles estão tentando se antecipar, dando às pessoas lugares para eles se mudarem e criarem uma nova atividade econômica. Há uma variedade de maneiras em que o problema pode se manifestar em diferentes partes do mundo. E é algo que realmente depende da geografia.

Como o problema afeta os Estados Unidos?
Há duas outras grande categorias de impacto em segurança nacional que em geral não são colocadas muito em foco pela comunidade internacional. Isso porque nos EUA, quando um tomador de decisão fala sobre segurança nacional, ele frequentemente está falando sobre força militar. Então as implicações das mudanças climáticas nos Estados Unidos sobre as Forças Armadas são muito significativas, porque o poder militar é construído em cima de uma enorme infraestrutura. Estamos falando em algo avaliado em torno de US$ 1 trilhão em infraestrutura em todo o mundo. E muito disso está alocado ao nível do mar. De modo que há implicações diretas da sua elevação. Outras locações podem sofrer com secas ou com o derretimento do permafrost (solo permanentemente congelado) no Alasca ou no Ártico, por exemplo. O aumento da frequência de tempestades também são outro risco. Tudo isso tem implicações sobre a infraestrutura militar e na capacidade de treinamento militar, então é uma grande questão para o Departamento de Defesa americano. Além disso, o departamento contempla outras missões relacionadas ao futuro. Por isso é importante observar alterações ambientais, como no Ártico. Um dos objetivos da Marinha, por exemplo, é monitorar o livre comércio nos mares. Se há um aumento do comércio através do Ártico porque, de repente, não há mais gelo lá, a Marinha americana terá de ser capaz de operar ali, com equipamentos e gente para operar em locais mais frios, por exemplo. Com mais atividade marítima, a Marinha pode ser chamada com mais frequência para dar suporte para outras agências federais em termos de prover segurança, estabilidade e paz para região. São peças diferentes do quebra-cabeças, que normalmente não estão no foco da comunidade internacional quando se discute questões de segurança e de instabilidade, mas são parte importante da conversa nos Estados Unidos quando falamos de mudanças climáticas e segurança nacional.

Na semana passada, o jornal The Washington Post publicou uma reportagem revelando que um relatório revisado pelo Pentágono tirou a ênfase sobre as ameaças que a mudança do clima traz para bases e instalações militares. De acordo com o jornal, foram removidas referências às alterações que estão ocorrendo no Ártico e o potencial risco do aumento do nível do mar. Esse relatório tinha sido iniciado quando o sr. estava no Departamento de Defesa, ainda na gestão Obama, e perdeu força. Como o sr. vê essas alterações?
Acredito que para o DoD, na administração atual, mudanças climáticas ainda são um problema, mas de menor prioridade. Acho que eles estão mais focados nas ameaças na Coreia do Norte e no Irã. Reconhecem que existem algumas demandas sobre clima nas quais eles vão precisar continuar atuando. Mas vão empenhar menos tempo em problemas que consideram emergentes e que virão no futuro, em detrimento de problemas que estão ocorrendo hoje. Mudanças climáticas de fato perderam um pouco o destaque. Eu acho que eles estão fazendo escolhas em relação à linguagem para assegurar que não gerem uma oposição desnecessária à Casa Branca. Mas os profissionais de infraestrutura no DoD ainda estão focados em criar resiliência, em continuar operando, apesar das mudanças que estão vindo. Eu acho que eles reconhecem que as mudanças estão vindo. O relatório sobre o qual fala a reportagem era para o Congresso sobre vulnerabilidades. Não era uma declaração formal de políticas, mas acho que reflete um cuidado que eles tão tendo particularmente com as palavras. Para não causar um transtorno junto à administração. De todo modo, as conclusões continuam lá. Só as causas que não tão claramente.

Mas o sr. acredita que mesmo assim os militares têm espaço para continuar agindo a fim de lidar de modo apropriado com a situação?
Acho que neste momento há coisas que estão acontecendo que podem ser pontuados como sintomas isolados das mudanças climáticas. Por exemplo, há um projeto no pedido de orçamento de 2019 que busca substituir um hangar de aviões baseado no Alasca porque as fundações estão rachando por causa do derretimento do permafrost. Eles vão gastar algum dinheiro para resolver o problema. Ou com novos piers que estão sendo construídos em locais mais altos por causa do aumento do nível do mar e para evitar problemas nos eletrônicos que são afetados pela corrosão da água salgada. Eles estão reagindo a esses problemas. Eles os reconhecem e estão planejando novas construções de modo a lidar com eles, mas sem necessariamente nomeá-los como parte de um problema mais holístico, que são as mudanças climáticas.

O sr. não acredita, então, que a luta contra as mudanças climáticas esteja sendo prejudicada? Acha que é mais uma questão de ajustes, quase de semântica, para que não haja estresse com a Casa Branca?
Não… eu acho que o cenário que temos está longe do ideal. Mas não é tão prejudicial quanto poderia ser. Eu caracterizo a situação mais como o pé sendo retirado do acelerador do que colocado no freio. É claro que há uma diferença de graduação. Ainda estamos movendo em frente, mas não tão rapidamente, nem com impulso. Idealmente, o DoD estaria olhando para esses problemas e reconhecendo-os e vendo os impactos que eles podem trazer. Eu vejo um problema quando, por exemplo, os EUA investem US$ 1 bilhão em uma instalação de radares numa ilha do Pacífico e então descobrimos que essa ilha pode não ter água potável já em 2030 por causa do aumento do nível do mar. O DoD deveria estar enxergando esse problema e levando ele em conta enquanto planeja novos pedidos de financiamento de modo a não perder dinheiro. Como pagador de impostos, eu quero que eles façam as coisas de modo mais inteligente e levando todas as informações em conta, em vez de ignorando certas coisas ou “esquecendo-as” porque não são uma prioridade política da administração. Mudança do clima tem de ser levada em conta junto com outras coisas. Não estou sugerindo que seja a única coisa considerada, mas deveria estar no meio, porque tem um monte de coisas em risco que podem ser evitadas ao se reconhecer que esse risco existe. Não precisa ser uma crise. Mas é um desafio. E é isso que queremos manter em mente.

Há alguma situação assim no Brasil ou na América Latina?
Eu não tenho exemplos para dar de instabilidade provocada pelas mudanças climáticas na região, mas certamente podemos pontuar os casos de estresse hídrico, as secas como as que a América do Sul sofreu nos últimos anos. Impactos de tempestades intensas certamente são sentidos em parte do continente e diferentes padrões de tempestades certamente vão afetar comunidades que não estão necessariamente preparadas para essas condições. E claro que há o impacto que as regiões costeiras deverão sofrer com o aumento do nível do mar. Isso não necessariamente é um problema de segurança nacional, mas haverá consequências sobre infraestruturas localizadas na costa. Também podemos pensar nos padrões agrícolas que irão mudar e poderão gerar deslocamentos econômicos. Mas é importante ter em mente que para uma mudança do clima realmente servir como um catalisador de instabilidade, é preciso ter um ingrediente adicional importante, que é os governos desses locais serem também mais frágeis. É preciso ter um governo frágil e um estresse climático para criar instabilidade. Acho que os governos na América do Sul tendem a ser menos frágeis que em outras partes do mundo. Na África, por exemplo, as instituições são mais frágeis. Se o governo é mais forte, a resposta também será. Ele será capaz de lidar com a crise. Os Estados Unidos vêm passando por uma enorme quantidade de problemas climáticos, como os muitos furacões que passaram por aqui no ano passado. O governo empenhou esforços de recuperação e foi isso. Se temos um governo com recursos econômicos para responder, não necessariamente serão criadas as condições de instabilidade sobre as quais estamos falando.

O Lago Chade em três momentos: 8 de dezembro de 1972 / 14 de dezembro de 1987 / 18 de dezembro de 2002. Secas persistentes encolheram o Lago Chade, na África, que já foi o sexto maior lago do mundo, a cerca de um vigésimo de seu tamanho original na década de 1960. Com profundidades de apenas 5 a 8 metros em tempos “normais”, o lago provocou mudanças dramáticas na paisagem depois de pequenas mudanças na profundidade. À medida que o lago encolheu, grandes áreas de várzeas (que aparecem em vermelho) substituíram a água navegável. Crédito: Nasa

O sr. percebe alguma piora no quadro mundial? É possível notar um aumento da instabilidade global por conta do avanço das mudanças do clima?
Talvez possamos pensar no caso do Lago Chade, na África, onde é possível ver que a mudança no tamanho do lago é dramática. Ele vem secando, o que tem causado muitos deslocamentos, ao mesmo tempo em que na região organizações extremistas violentas têm ganhado mais e mais poder com esses deslocamentos econômicos. Eles estão recrutando um número cada vez maior de pessoas porque elas não têm emprego, não têm esperança. É uma das dinâmicas que temos visto. Não sei se eu chamaria isso de aumento da instabilidade, mas certamente é um problema, um exemplo recente de um impacto do estresse climático.

O Nordeste do Brasil, que historicamente foi afetado por secas severas, vêm passando por uma piora desse quadro, com uma seca continua que já dura seis anos e têm implicações diretas em aumento da fome e de migrações internas. Essa é uma situação que vocês avaliam como potencial geradora de uma instabilidade na segurança?
É exatamente esse o tipo de problema com os quais os governos devem se preocupar. Se um impacto climático cria deslocamentos econômicos e um consequente aumento de migrações, isso gera um estresse nas instituições desta nação em particular. O desafio é: esta nação está preparada para responder a isso? Nós tendemos a acreditar que conseguimos, muitas vezes, prever esse tipo de coisa vindo. Como podemos fortalecer nossas instituições para estarem preparadas para lidar com um problema dessa magnitude, ajudar seus cidadãos e evitar que vire um problema ainda maior do que o climático que originou tudo? A responsabilidade das nações é se preparar para problemas que podem ser previstos ou podem ser piorados, como o que você está descrevendo para o Brasil. Em Bangladesh, por exemplo, há um bom exemplo de nação que percebe que o problema está vindo e já está agindo hoje. Eles estimam que com o aumento do nível do mar haverá o deslocamento de cerca de 20 milhões de pessoas. E reconhecem que, sem uma ação apropriada, essas 20 milhões de pessoas vão em massa se mudar para um único grande centro urbano na capital, que já está lotado. Então o governo está criando centros urbanos alternativos e incentivando as pessoas se mudarem para eles antecipadamente. Estão gerenciando a questão da migração de modo pró-ativo. Eles viram o problema vindo e estão tentando gerenciá-lo.