Mudança do clima vai afetar mais pobres e pode inviabilizar megacidades como São Paulo

Giovana Girardi

09 Setembro 2013 | 20h56

Charge bem-humorada emprestada da web que dá o tom do drama brasileiro

“Não é nenhuma catástrofe, o mundo não vai acabar, mas precisamos tomar decisões rápidas, porque as populações mais atingidas serão as que hoje são as mais desassistidas.” Com essa declaração, o engenheiro agrícola Eduardo Assad, da Embrapa, especialista em mudanças climáticas, resumiu o tom do primeiro relatório de avaliação nacional do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), divulgado hoje.

O trabalho, conforme noticiou o Estado na edição desta segunda, traz uma síntese sobre o estado da arte do conhecimento sobre como o País vai ser afetado pelas mudanças climáticas. Em linhas gerais, mostra que as mudanças já estão ocorrendo, como temos observado nas variações de extremos de temperatura durante este inverno, com a diminuição de noites e de dias frios e com a frequência cada vez maior de eventos extremos. O relatório traz também mais detalhes de como as temperaturas e a ocorrência de chuvas deve mudar.

De acordo com a apresentação dos pesquisadores, em evento que abriu a Conferência Nacional de Mudanças Climáticas Globais, os resultados apontados para o Brasil são consistentes com o que o novo relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) deve trazer agora no final do mês.


Preliminares do relatório internacional que vazaram para a imprensa têm em geral apontado que o novo relatório trará como ponto principal uma certeza maior sobre dados já citados no relatório de 2007. Há uma certa necessidade dos cientistas de comprovar que as projeções estavam no final das contas certas depois de o painel ter sido bastante criticado por erros em relação ao degelo do  Himalaia. Mas a tomar pelo relatório brasileiro, os cenários vão também ser mais pessimistas. O texto aponta, por exemplo, que o nível do mar no Brasil pode chegar em algumas regiões a subir até meados do século o que se esperava só para 2100.

“A gente se esforçou muito para mostrar que temos certeza do que estamos falando. Que estávamos certo. Mas esse relatório terá sim uma mudança, será mais pessimista. De fato os números são mais alarmantes do que tínhamos em 2007”, afirma Moacyr Araújo, pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco e um dos coordenadores do grupo de trabalho 1 do painel brasileiro.

Segundo o climatologista Paulo Artaxo, da USP, os resultados são consistentes com o que o IPCC vai trazer. “Eles dialogam, mas a diferença do nosso é olhar para a nossa realidade, olhar para o nosso território, nossas particularidades e como vamos ficar.”

São Paulo. O relatório traz um alerta especial ao impacto a megacidades, como São Paulo e Rio de Janeiro. Principalmente no que se refere à questão de mobilidade urbana. “As reformas pensadas para o sistema de transporte têm de considerar, além de seu potencial de mitigar (reduzir) as emissões de gases de efeito estufa, as adaptações que ele terá de sofrer para se adequar às mudanças do clima das cidades”, afirma a pesquisadora Andrea Santos, secretária-executiva do PBMC e autora principal do capítulo sobre transportes.

Apesar de lacunas que o trabalho ainda não conseguiu fechar, como os custos que as mudanças climáticas podem trazer para o setor, ele já aponta para os riscos. “Toda infraestrutura de pavimentação, estrutura de ferrovias, de metrôs, não foi pensada, por exemplo, para um aumento de temperaturas ou de chuvas mais intensas. Nem as avenidas beira-mar levam em conta o aumento do nível do mar, das erosões costeiras.”

Para ela, mudanças estratégicas que reduzam o número de veículos na rua, como vem defendendo o prefeito Fernando Haddad, têm de por outro lado valorizar alternativas menos emissoras, como o transporte público sobre trilhos. E isso tem de casar com ações mais amplas, como também reduzir o transporte rodoviário de cargas. “São ações que podem ser sinérgicas, promovendo mitigação, adaptação e ainda melhoria da mobilidade urbana. “O Rio de Janeiro e outras cidades costeiras, por exemplo, têm de pensar em investir no transporte aquaviário, diversificar suas fontes”, diz Andrea.

Para o caso de megacidades os pesquisadores demonstraram preocupação também em relação à supressão da pouca vegetação que resta no etorno. “As megacidades estão sujeitas às mudanças globais e ao microclima, como as ondas de calor. Mas elas estão se expandindo sobre os remanescentes de áreas verdes sem pensar nos serviços que elas prestam na regulação do clima”, afirma o pesquisador Paulo Nobre, do Inpe, que está fazendo uma investigação específica sobre essa situação em São Paulo.

Sua preocupação consiste nas modificações em estudo do plano diretor da capital. “Se a cidade continuar crescendo em direção a Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, que é o resto de mata que temos, por exemplo, na Cantareira, veremos um agravamento dos extremos climáticos na cidade. Teremos aumento de chuvas intensas, de inundações, das ondas de calor, além da degradação da qualidade do ar”, estima.