Morre almirante que aprendeu com o mar a proteger o ambiente

Morre almirante que aprendeu com o mar a proteger o ambiente

Ibsen Gusmão Câmara ajudou na criação de diversas Unidades de Conservação do País e lutou pela preservação das baleias. Foi um dos mais significativos defensores do ambiente no Brasil

Giovana Girardi

31 Julho 2014 | 13h33

 Morreu na madrugada desta quinta-feira, aos 90 anos, um dos mais significativos defensores do meio ambiente no Brasil, o almirante Ibsen de Gusmão Câmara.

Com o olhar de quem veio do mar, ele lutou contra a caça de baleias no Brasil até conseguir proibi-la, o que permitiu que hoje populações de baleias jubate, por exemplo, estejam em processo de recuperação. Câmara também ajudou a criar diversas Unidades de Conservação, entre elas os Parque Nacionais de Fernando de Noronha e Abrolhos e a Reserva Biológica de Atol das Rocas.

Recentemente era presidente honorário da Rede Pró-Unidades de Conservação e era membro do Conselho da Fundação Boticário.

Em 2008 tive o prazer de entrevistá-lo para um caderno especial publicado em 1 de outubro daquele ano, sobre verdadeiros heróis do ambiente no Brasil. Reproduzo abaixo o perfil que fiz dele naquela ocasião.

A visão que vem do mar (1/10/2008)

Almirante Câmara adotou a conservação já na década de 60

Em plena década de 60, quando o governo brasileiro olhava para a Amazônia como uma região a ser ocupada, explorada e desenvolvida, um almirante da Marinha percebeu que aquele movimento não poderia dar certo e resolveu se manifestar contra isso.

Hoje reformado, Ibsen de Gusmão Câmara, aos 84 anos, lembra que, na época, falar em conservação era como “pregar no deserto”, mas foi graças à sua insistência que foram criadas no País algumas regras de proteção ao ambiente.

Ele conta que desde criança gostava da natureza e, nos tempos de escola, ficava intrigado com uma inscrição que constava em seu atlas. Acima de Mato Grosso aparecia escrito apenas “áreas inexploradas”. Ficou decidido a um dia conhecê-las.

De fato, foi quando esteve naquele território desconhecido que despertou para a questão ambiental. Coordenando as atividades de uma flotilha da Marinha na Amazônia, ele teve a chance de vasculhar toda a área navegável do Amazonas.

“Aquele período me permitiu um contato íntimo com a realidade da floresta. Já naquela época havia muita destruição. O Código Florestal (de 1965, que estabelece uma área de reserva legal que não pode ser desmatada) e a lei de proteção à fauna (de 1967) estavam em vigor, mas ainda se caçava quantidades assombrosas para exportação de peles. Presenciei ali uma destruição progressiva.”

Dois anos depois, em 1969, ao voltar para o Rio, decidiu se engajar na luta pela conservação e se afiliou à única ONG ambiental da época, a Fundação Brasileira para a Conservação da Natureza, a qual presidiria após a aposentadoria. Autodidata, aprendeu por conta própria sobre biologia para poder falar com propriedade sobre proteção.

Posteriormente, Câmara também faria parte do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama). “Era um pouco frustrante porque a gente mostrava que as coisas não estavam bem, mas ninguém ouvia, só queriam saber de desenvolvimento. Achavam que tudo aquilo era só para proteger ‘bichinho’, sem ver que estávamos destruindo as bases que nos sustentam”, conta.

Câmara afirma que nunca enfrentou problemas por falar de conservação enquanto pertencia às Forças Armadas, mas, por “precaução”, costumava pedir à filha que assinasse alguns de seus artigos denunciando problemas ambientais.

Conquistas. Entre as muitas campanhas em que se engajou, as duas maiores conquistas de Câmara foram a proibição à caça de baleias no Brasil e a definição do que é a mata atlântica. No primeiro caso, foi preciso lutar contra interesses comerciais. No segundo foi contra uma longa tramitação no Congresso.

“A caça à baleia foi uma das muitas coisas que eu vi que estavam erradas e me empenhei nisso, porque ninguém ligava, e os japoneses estavam livremente no Nordeste caçando. Eu comecei a brigar, brigar, brigar, busquei argumentos, tentei mostrar que não tinha por que matar o animal e que as baleias iam se extinguir se aquilo não parasse.”

A batalha levou mais de dez anos, até que, em 1989, a caça foi proibida. “O movimento tomou corpo e mudou completamente a orientação do País. O Brasil chegou a defender, na Comissão Internacional Baleeira, a caça e hoje é radicalmente contra.”

Em relação à floresta tropical, ele trabalhou com a ONG SOS Mata Atlântica para criar o Plano de Ação para a Mata Atlântica. Foi com base em seus estudos que, em 1991, se definiu legalmente o que era a floresta, favorecendo a proibição do corte. Foi o ponto de partida que levaria à formulação do projeto de lei de proteção a esse bioma, aprovado no ano passado (2007), após 14 anos de tramitação no Congresso.