Metas de redução de CO2 são insuficientes para conter aumento da temperatura em 2°C

Metas de redução de CO2 são insuficientes para conter aumento da temperatura em 2°C

Giovana Girardi

05 Novembro 2013 | 19h42

Usina de carvão na China. País anunciou o compromisso de reduzir suas emissões, mas tem sofrido com escassez de gás natural, uma alternativa menos poluente que o carvão. Crédito: REUTERS/Stringer

Mesmo que todos os países cumpram os compromissos já assumidos de reduzir suas emissões de gases de efeito estufa nos próximos anos, em 2020 a quantidade de CO2-equivalente lançado na atmosfera deve ser de 8 a 12 gigatoneladas (Gt) acima do limite projetado para manter o aquecimento do planeta em 2°C até 2100.

O cálculo foi divulgado nesta terça-feira pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) como parte do Relatório sobre a Lacuna de Emissões (veja um

Documento

, em inglês), que, desde 2010, avalia anualmente como o mundo está caminhando em relação ao aquecimento global.

O estudo leva em conta as metas voluntárias que vários países vêm assumindo desde a Conferência do Clima da ONU realizada em Copenhague, em 2009. Na ocasião, diante da indefinição para o estabelecimento de um acordo global que pudesse ser cumprido por todos, concordou-se que os países submeteriam metas voluntárias a serem cumpridas até 2020. A expectativa é que nessa data um novo regime entre em vigor.


Desde então, o Pnuma, com a ajuda de mais de 70 cientistas, vem calculando anualmente se essas metas voluntárias são suficientes para manter o mundo no rumo de um aumento de temperatura de no máximo 2°C até o final do século ou se haveria uma lacuna entre a ambição e a realidade.

As pesquisas apontam que, para ficar naquele patamar de temperatura, as emissões deveriam atingir um máximo de 44 GtCO2-equivalente (ou CO2e, unidade que equipara todos os gases estufa ao potencial de aquecimento do CO2, o gás mais liberado)em 2020. Em seguida teriam de cair para 40 Gt em 2025, 35 Gt em 2030 e para 22 Gt em 2050.

As emissões atuais, porém, já estão muito mais altas do que deveriam estar em 2020 – na casa das 50 Gt de CO2e, segundo estimativas de 2010. Num cenário em que não haja mudanças no modelo econômico atual, elas podem chegar a 59 Gt em 2020, 1 Gt acima da estimativa apresentada no relatório do ano passado.

E mesmo com as metas e compromissos estabelecidos nos últimos três anos, seria possível reduzir esse valor de 3 a 7 gigatoneladas. Ou seja, insuficiente para colocar o mundo no trilho correto.

“O atraso na implementação de medidas implica em mais mudanças climáticas em curto prazo e a possibilidade de mais impactos climáticos”, afirmou Achim Steiner, diretor executivo do Pnuma durante o lançamento. Ele ressaltou, porém, que ainda é possível alcançar a meta de 2020 “com o reforço dos atuais compromissos e a criação de novas medidas, incluindo a ampliação de iniciativas de cooperação internacional em áreas como a eficiência energética, a reforma dos subsídios aos combustíveis fósseis e as energias renováveis”.

Para ele, um setor estratégico é a agricultura, que responde por 11% do total global de gases de efeito de estufa. Técnicas relativamente simples, de mudança do uso do solo, têm um alto potencial de reduções. O setor é um dos principais alvos de redução no Brasil.

O anúncio foi estrategicamente feito a poucos dias do início da nova rodada de negociações internacionais climáticas. Começa na segunda-feira (11), em Varsóvia (Polônia) a 19ª Conferência do Clima da ONU. A reunião, que segue até o dia 22, tem praticamente dois objetivos: ajudar a construir o caminho para que se chegue a um novo acordo climático em 2015, em Paris, para começar a vigorar em 2020; e tentar aumentar as ambições dos países sobre o que eles podem fazer até 2020.

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Viajo para lá no sábado, a convite da Convenção do Clima da ONU (UNFCCC), e vou reportar por aqui, pela editoria Metrópole, do Estadão, e pela Rádio Estadão, os avanços (ou não) das negociações.