Metas ambientais de Doria são vagas e pouco contribuem, criticam ONGs
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Metas ambientais de Doria são vagas e pouco contribuem, criticam ONGs

Coletivo de organizações da sociedade civil analisou as metas de mobilidade, áreas verdes, resíduos sólidos e energia e disse que, em geral, são vagas e pouco ou nada mensuráveis; prefeitura diz que programa ainda é preliminar e que sugestões serão avaliadas

Giovana Girardi

06 Abril 2017 | 20h57

Falta de uma meta concreta de aumento das ciclovias foi um dos motivos de crítica. Crédito: Daniel Teixeira / Estadão

Falta de uma meta concreta de aumento das ciclovias foi um dos motivos de crítica. Crédito: Daniel Teixeira / Estadão

As metas da gestão João Doria (PSDB) para os setores mais relacionados com o ambiente – áreas verdes, resíduos sólidos, mobilidade e energia – foram classificadas por ONGs que trabalham com os temas como “vagas, pouco ou nada mensuráveis, e com linhas de ação que não contribuem diretamente para a meta a qual está relacionada”.

A análise foi divulgada nesta quinta-feira (6) por organizações, movimentos e coletivos da sociedade civil que compõem o projeto “Cidade dos Sonhos”, lançado no ano passado com o objetivo de contribuir com os candidatos à prefeitura a elaborar planos que ajudem a “transformar as cidades em ambientes acolhedores, saudáveis e sustentáveis”. Para o grupo, o plano de metas nos temas relacionados a essas questões estão longe disso.

Também disseram que “quando há metas quantitativas no prazo do final da gestão, em 2020, elas representam avanços tímidos e pouco significativos para a cidade.” Segundo Gabriela Vuolo, coordenadora do Cidade dos Sonhos, o formato do plano de metas prejudica seu acompanhamento. “Além disso elas não estão territorializadas, não se diz onde elas serão implementadas, o que inviabiliza a participação regional”, diz.


Mobilidade. Em mobilidade, o tema que traz mais metas no plano de Doria, grupos que trabalham com o tema, como Ciclocidade, Greenpeace e Sampapé, questionam o fato de o plano de metas “não incluir ações para tornar o transporte público mais acessível, mais rápido e mais barato para as pessoas”. E complementam: “Não há ação relacionada a corredores e faixas exclusivas de ônibus, nem a ônibus municipais rodando com combustível limpo e renovável.”

Para eles, várias das metas e linhas de ação estariam com “indicadores subdimensionados, superdimensionados ou equivocados”.

É o caso, dizem eles, da meta de “aumentar em 10% a participação da mobilidade ativa em São Paulo.” As organizações pedem que se especifique o indicador – como número de viagens realizadas – e se mensure separadamente as metas de mobilidade a pé e de bicicletas: “Aumentar o número de viagens realizadas por modos ativos em São Paulo, ampliando em 10% o número de viagens a pé e em 100% o número de viagens por bicicleta”, sugerem. Afinal, hoje já cerca de ⅓ das viagens são a pé, mas se estima que apenas 1% é com bike

Outro problema, dizem, é que muitas metas não são mensuráveis, como o que propõe “aprimorar o sistema cicloviário”. “Aprimorar pode ser qualquer coisa”, comenta Marina Harkot, do Ciclocidade. “Se trocar uma tinta que derrapa por uma que não derrapa, isso é aprimorar, mas não quer dizer muito. E é algo impossível de medir.”

Na sugestão do grupo, a meta deveria refletir o que já aparece PlanMob (Plano de Mobilidade, concluído na gestão Haddad), de expandir a rede de ciclovias em mais 425 km, para chegar a um total de 880 km até 2020.

Além disso, algumas metas já existem, como a que estabelece a realização de estudos sobre corredores de ônibus. “Já existe esse estudo, inclusive com áreas prioritárias definidas. O que precisa é fazer os corredores”, afirma Rafael Calabria, do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).

Outra nessa linha é a que fala em “ofertar sistema de compartilhamento de bicicleta”. É o caso dos sistemas hoje patrocinados por Itaú e Bradesco. “Tinha de falar em aumentar a cobertura, que é de apenas 8% do território, para 40% do território ate 2020, que também está no PlanMob”, complementa Marina.

Baixa meta de plantio de árvores também foi alvo de crítica. Crédito: Werther Santana / Estadão

Baixa meta de plantio de árvores também foi alvo de crítica. Crédito: Werther Santana / Estadão

Áreas verdes. Há críticas, por exemplo, à meta de plantio de 200 mil árvores no município até o final da gestão, com prioridade para as 10 prefeituras regionais com menor cobertura vegetal. Segundo as organizações, é muito pouco e não deve melhorar a cobertura vegetal da cidade. Participantes do Movimento Boa Praça usaram como parâmetro a recomendação da OMS, que é de 15 m²/hab.

O grupo calcula que as 200 mil árvores trariam um incremento de apenas 1,17 m²/hab ao que já existe. E recomendam que a meta seja mais específica e mensurável, como atingir o mínimo de 6 m²/hab tm todas as 32 prefeituras regionais. Sobre esta meta específica, o prefeito João Doria tem dito, desde o final da semana passada, que serão plantadas 1 milhão de árvores na cidade, independentemente do que diz a meta.

Outra crítica é à falta de alguma meta relacionada à atividade rural na cidade, embora esse tema estivesse presente em pelo menos dez itens do programa de governo apresentado por Doria durante as eleições. A sugestão das organizações é de inclusão de uma meta que busque “assegurar o cumprimento mínimo de 20% de alimentos orgânicos na alimentação escolar até 2020”.

Resíduos sólidos. No tema de resíduos sólidos, o Observatório da Política Nacional de Resíduos Sólidos e organizações de catadores apontaram que reduzir em 100 mil toneladas/ano a quantidade de rejeitos enviados aos aterros, como proposto no plano, é muito pouco. De acordo com os números apresentados, o alcance da meta teria um impacto de apenas 1,8% no total de lixo da cidade (na comparação com o ano de 2016), e isso apenas em 2020.

Energia. Em energia, a análise é que a meta de implantar eficiência energética em 100% dos novos projetos de edificações também é insuficiente. Para o grupo, também deveria ter sido incluída a proposta que tinha sido discutida no programa de governo de trocar toda a iluminação pública por lâmpadas de LED.

Posição do governo. Procurada pela reportagem, a Prefeitura de São Paulo encaminhou a demanda ao secretário de Gestão, Paulo Uebel. Ele preferiu não se manifestar sobre nenhuma crítica específica, mas disse que todas as sugestões serão avaliadas. O programa está na fases de consulta popular, que conta com audiências a partir desta quinta-feira e segue aberta para comentários na internet até o final do mês.

“A gente entregou uma primeira versão do programa de metas. É preliminar, não conta ainda com orçamento, cronograma, regionalização. Isso só será feito após a consulta popular, que serve justamente para identificar, dialogar com a sociedade para entender os anseios da população”, disse. Segundo ele, todas as sugestões são bem-vindas. “É passo fundamental para qualificar o programa de metas.”

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