McDonald’s anuncia compra de carne sustentável da Amazônia

McDonald’s anuncia compra de carne sustentável da Amazônia

Projeto pioneiro de recuperação de pastagem degradada e intensificação da pecuária em Alta Floresta (MT) foi capaz de reduzir em 90% as emissões de gases de efeito por quilo de carne produzida; entrada da rede de fast food comprando essa carne pode impulsionar a iniciativa em outros produtores

Giovana Girardi

17 Agosto 2016 | 11h31

Um programa pioneiro no Brasil que busca tornar a pecuária na Amazônia mais produtiva, menos emissora de gases de efeito estufa, menos desmatadora – e, por causa disso tudo, mais sustentável – recebeu na manhã nesta quarta-feira, 18, um apoio de mercado que pode ajudar a ampliar esse tipo de iniciativa na região.

Gado em área intensificada em fazenda de Alta Floresta. Crédito: Daniela Torezzan / Divulgação

Gado em área intensificada em fazenda de Alta Floresta. Crédito: Daniela Torezzan / Divulgação

A rede McDonald’s, que tradicionalmente não comprava carne proveniente do bioma como parte de uma política de não apoiar produtos que pudessem ter sido obtidos a partir do desmatamento da floresta, anunciou hoje um acordo de compra de 250 toneladas por ano de carne fornecida pela fazenda Bevilaqua, de Alta Floresta (MT), que faz parte do programa Novo Campo. A iniciativa visa a recuperação de pastagens e a intensificação da pecuária para conter o desmatamento na Amazônia.

É ainda uma fração pequena perto das 30 mil toneladas que o McDonald’s demanda por ano, mas, segundo Leonardo Lima, diretor de Sustentabilidade da Arcos Dorados (empresa que administra o grupo na América Latina), o compromisso é aumentar essa compra ano a ano. Pelo menos outras duas fazendas do Novo Campo também já foram auditadas pelo grupo e são consideradas aptas a fornecer carne para a rede de fast food.


“Nosso compromisso no Brasil e no mundo já vem de longa data de não comprar nada que possa vir de áreas naturais afetadas. Mas percebemos que virar as costas para áreas degradadas e tirá-las do nosso mapa não é mais a melhor opção. O compromisso com o desmatamento zero segue, mas também temos de incentivar a recuperação de áreas para que seja possível aumentar a produção com menos área”, disse Lima com exclusividade ao Estado.

“Acreditamos que o apoio vai possibilitar que esse tipo de projeto receba mais atenção e possa ajudar a mudar a cultura do pecuarista. Normalmente ele ainda considera que quando tem pasto o gado come, quando tem água o gado bebe. Com isso a produção é baixa e ele sempre precisa abrir mais áreas para colocar pasto depois que o anterior se degradou. Esse projeto que estamos apoiando é o contrário disso, é produzir mais com menos área. O pecuarista vira um agricultor, cria as oportunidades para seu gado, com alimentação e água constantes”, afirma.

Intensificação. O Novo Campo foi lançado em 2012 como uma iniciativa da ONG Instituto Centro de Vida (ICV) para ajudar a controlar o desmatamento em Alta Floresta, maior polo de pecuária no norte de Mato Grosso que tinha, alguns anos antes, engrossado a lista de municípios líderes de desmatamento no Estado, chegando a ser embargado pelo governo federal.

O entendimento era de que o boicote à carne proveniente de desmatamento – como ocorre desde 2009, quando os três principais frigoríficos do País (JBS, Marfrig e Minerva) assumiram o compromisso de não comprar de fornecedores que desmatassem – é importante, mas não suficiente, visto que há vazamentos. Produtores ilegais ainda conseguem vender para outros frigoríficos menores que não respeitam esse acordo. Era preciso tentar alguma coisa diferente, fazer o pecuarista também ganhar algo a mais com a legalidade.

O projeto piloto, com 14 proprietários de terra, começou ajudando a recuperar pastagens degradadas e áreas de proteção permanente (APPs) que tinham sido desmatadas. Depois, em uma parcela de 30 hectares de cada propriedade, foi implementado um pacote tecnológico da Embrapa de boas práticas pecuárias. O interesse para o proprietário era não só a possibilidade de se regularizar perante à lei, mas também aumentar sua produtividade.

Tradicionalmente baixa em toda a Amazônia, chegando a menos de 1 animal por hectare no Estado do Mato Grosso, a média de ocupação do pasto em Alta Florestal é um pouco maior, 1,22 unidade animal (uma UA equivale a 450 kg de peso vivo) por hectare, mas o valor ainda é considerado baixo. Nas áreas intensificadas de cada fazenda, a lotação, depois de um ano e meio de programa, chegou a 2,71 em média.

O trabalho levou a uma redução no tempo de abate, saindo de uma média de 44 meses para 30 em machos, e de 34 para 24 em fêmeas. A produtividade passou de 4,7 arrobas por hectare por ano (média do Estado) para 20,8 nas áreas intensificadas. Com tudo isso, a rentabilidade aumentou na comparação com o sistema tradicional, passando de uma renda média bruta de R$ 100/ha para R$ 975 nas áreas intensificadas.

“Mostramos na prática que a pecuária podia ser diferente, que a intensificação na Amazônia era viável. O desafio seguinte era ver se tinha capacidade de expansão”, explicou Francisco Beduschi, coordenador da iniciativa no ICV. Desde 2014, o programa já envolveu 40 fazendas, em diferentes estágios de intensificação.

“Trazer o McDonald’s para esse projeto, considerando que é uma empresa global, muito visado, demonstra para o mercado que esse tipo de produção funciona, é viável para todos os elos da cadeia e tem um caminho possível na direção da sustentabilidade”, disse.

O que era um piloto deu um grande salto com a entrada, em meados do ano passado, da empresa Pecsa (Pecuária Sustentável da Amazônia), que, captando dinheiro no exterior, ampliou a escala do Novo Campo. Em vez de recuperar apenas em uma parcela da propriedade, eles expandiram o trabalho para a fazenda inteira. A primeira foi a Bevilaqua, que já estava no projeto desde o começo e ganhou uma reforma integral em seus 600 hectares. Foi o que permitiu chegar à quantidade que será fornecida ao McDonald’s.

Laurent Micol, diretor de governança e investimentos da Pecsa, explica que ao entrar em uma fazenda, a empresa assume temporariamente a gestão da propriedade. No ano passado eles fizeram a reforma de 1.800 ha, e neste ano já vão saltar para 8.500. A expectativa é, nessas áreas, abater entre 35 mil e 40 mil animais por ano.

“Mas ainda estamos falando de pouco mais de 10 mil hectares em uma região que tem 4 milhões de hectares de pastagens degradadas. Queremos chegar em 100 mil ha em menos de 6 anos. Ainda assim é pequeno, mas tem efeito multiplicador”, disse.

Os ganhos se tornaram bem mais expressivos. Segundo ele, a média de produtividade da Bevilaqua, por exemplo, saltou para 35 arrobas/ha/ano. Foi, então, fechado um acordo com a JBS para a venda de toda a carne produzida no modelo da Pecsa. É o frigorífico que vai fornecer para a rede de fast food.

Emissões. Além do interesse econômico, a iniciativa já demonstrou ter um impacto sensível para o clima. Hoje a pecuária é a segunda maior fonte de emissões de gases de efeito estufa do País – por causa do metano emitido na fermentação entérica do gado –, ficando pouco atrás do desmatamento. Colocar mais bois num mesmo espaço, com boas práticas que reduzem o tempo para o abate, diminui essa contribuição.

Uma análise do Imaflora sobre o projeto piloto calculou que as emissões caíram 20% por hectare de pastagem das propriedades. A redução é ainda mais significativa se for considerada a emissão por quilo de carne produzida – que é o grande objetivo: produzir mais emitindo menos. Nesse caso, como a eficiência produtiva cresceu cerca de 2,5 vezes, houve uma redução de 60% das emissões por quilo de carne.

“Nas áreas em que administramos a reforma integral, houve redução de emissão de 40% por hectare e de 90% no quilo de carne produzida. É por isso que acreditamos que tem de ganhar escala. Poucos setores têm potencial tão grande de reduzir emissões”, afirmou Micol.

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