Matéria sobre cacau vence prêmio de reportagem sobre Mata Atlântica

Matéria sobre cacau vence prêmio de reportagem sobre Mata Atlântica

Giovana Girardi

15 Outubro 2013 | 15h32

Antes tarde do que nunca, compartilho abaixo a reportagem “Cacau tenta renascer com lema de protetor da Mata Atlântica”, que publiquei em julho do ano passado no Estadão. A autocitação mais de um ano depois tem motivo. A matéria ficou com o 1.º lugar na categoria Jornal Impresso do Prêmio de Reportagem sobre a Mata Atlântica, que é oferecido pela Aliança para a Conservação da Mata Atlântica, uma parceria entre as ONGs Conservação Internacional e Fundação SOS Mata Atlântica, e foi entregue na quarta passada (9).

O texto conta a história de um grupo de produtores de cacau que cultiva o fruto de uma maneira mais sustentável, no chamado sistema cabruca, no qual os pés de cacau crescem à sombra de árvores nativas da Mata Atlântica, ajudando, assim, a conservar o bioma mais devastado do País. Segue abaixo.

CACAU TENTA RENASCER COM LEMA DE PROTETOR DA MATA ATLÂNTICA

“Não jogue as amêndoas fora. Três valem uma galinha, mil compram um boi”, alerta o chocolateiro Diego Badaró ao pequeno grupo que se delicia chupando a delicada e doce polpa do cacau que ele acabara de retirar do pé. Em tom de brincadeira, ele remete a uma época em que as sementes do cacau valiam ouro no sul da Bahia, e os fazendeiros – os “coronéis” – eram retratados nos romances de Jorge Amado. Não à toa, a e

xpressão “ele é cheio do cacau” foi cunhada para definir quem tinha muito dinheiro.

Mesmo sem o glamour de antigamente e como setor abatido pelo ataque de uma praga no final dos anos 1980 e pela concorrência com a África (líderes mundiais), elas ainda são preciosas – afinal é delas que se faz o chocolate. O jeito então é continuar a caminhada pela estradinha de terra que corta a plantação nos arredores de Itacaré segurando a cumbuca de cacau repleta de amêndoas.

Mas sob o sol ardido, apesar do inverno, a vontade é deixar a trilha e se embrenhar pelos pés de cacau, aproveitando a esperteza dos pioneiros cacauicultores que os plantaram à sombra de árvores nativas – o chamado sistema cabruca. Mal imaginavam que essa relação histórica com a Mata Atlântica serviria, 250 anos depois, para promover o renascimento do setor.

Ao manter ao menos uma parcela da floresta em pé, os cacaueiros ajudaram a proteger o bioma. O sudeste da Bahia é considerado a região mais preservada do Nordeste, em parte por conta desse manejo. Tanto que algumas áreas de cabruca estão identificadas no Atlas da Mata Atlântica, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e da SOS Mata Atlântica, como remanescentes florestais. Agora os produtores querem que esse serviço ambiental se reverta em uma valorização extra, que impulsione a retomada de crescimento da produção.

Esse foi o mote principal do Fórum Internacional do Cacau e Chocolate, realizado no começo do mês em Salvador, que antecedeu o Salon du Chocolat (evento internacional que pela primeira vez ocorreu em um país produtor). Muitos dos chocolateiros estrangeiros que estavam na cidade para falar do seu produto final tiveram a chance de ver pela primeira vez como se cultiva seu principal material de trabalho.

De quebra, foram “catequizados” sobre o diferencial sustentável do cacau baiano por pessoas como Badaró, cuja família produz cacau no sistema cabruca há cinco gerações e há alguns anos enveredou pelo cacau orgânico e a produção do chocolate fino Amma. E por Durval Libânio, também produtor, mas que partiu para a pesquisa e a assistência a agricultores familiares e assentados com a criação do Instituto Cabruca.

Depois da vassoura de bruxa. Este momento de buscar a valorização do sistema se segue a um período de vacas magras para os cacauicultores baianos. No final dos anos 1980, a região do sudeste do Estado, mais conhecida pela cidade de Ilhéus, foi infestada – em o que hoje se sabe ter sido um ato criminoso – pelo fungo Moniliophtera perniciosa, que se espalhou rapidamente. A produção, que era de 400 mil toneladas por ano, caiu para 120 mil. Foram perdidos 250 mil empregos e até hoje cerca de 14 mil cacauicultores, 95% deles pequenos, continuam endividados.

Muitos desistiram da cultura, transformando suas fazendas em pastagens. De acordo com Guilherme Galvão, presidente da Associação de Produtores de Cacau, em 20 anos, 150 mil hectares de cabruca tiveram esse fim. Outros abandonaram os cacaueiros, que acabaram sendo invadidos por madeireiros atrás das árvores nativas de valor. Proliferam também espécies exóticas, como jaqueiras e cajazeiros. Estima-se que a área de cabruca no sudeste da Bahia diminuiu em torno de 20% nesse período.

O modelo, que antes da praga tinha sido desacreditado pelo instituto de pesquisa Ceplac, que incentivava a derruba total da mata e o plantio do cacau associado a outras culturas, como a leguminosa exótica eritrina e bananeiras, acabou perdendo espaço para esse novo formato chamado de “a pleno sol”. Hoje, aliás, boa parte da expansão do cacau no baixo sul da Bahia ocorre sem as tradicionais sombras da cabruca. A ameaça à Mata Atlântica, claro, cresceu.

Biodiversidade. Não que antes não tivesse havido desmatamento. A cabruca, por conceito, significa brocar a mata – o cacau não sobreviveria sem luz, então no passado se raleou a floresta para deixar passar o sol. Segundo Libânio, a biodiversidade relativa preservada em um hectare de cabruca é em média de cerca de 13% do original de espécies arbóreas.

Segundo cálculos feitos pelo Instituto Cabruca, até 70 espécies arbóreas foram encontradas em 1 hectare do sistema. Apesar de ser bem menos significativo que as mais de 300 que costumam existir nas áreas mais preservadas e ricas, “sua presença em paisagens alteradas é de fundamental importância para a preservação de espécies arbóreas”, escrevem Libânio e colegas em artigo na revista Biodiversity and Conservation.

“Como as plantações são muito heterogêneas, a conservação que promovem acaba sendo maior. As espécies encontradas num hectare não são as mesmas vistas nos hectares vizinhos”, explica ele. Além disso, as árvores preservadas são justamente aquelas de maior valor, alvo de corte seletivo por madeireiros. Espécies importantes para a conservação da biodiversidade, como pau-brasil, maçaranduba, jequitibá, vinhático, peroba-rosa, jacarandá. “O produtor do cacau não deixa tirar porque vai afetar a produção dele. O maior remanescente de pau-brasil do País está em área de cabruca no município de Tamaraju, hoje um assentamento de reforma agrária”, afirma.

Ele ressalta a importância da cabruca em abrigar uma alta diversidade de morcegos e pássaros e de funcionar como corredor ecológico para a fauna se locomover entre os remanescentes da Mata Atlântica.

Agora se tenta recuperar o que foi perdido, manejando as cabrucas abandonadas para retirar o excesso de árvores exóticas e reflorestando o que virou pasto. A ideia é cultivar um sistema agroflorestal semelhante à cabruca, com cacau, nativas e algumas espécies de valor econômico.

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Qualidade e conservação
EDUARDO SALLES
SECRETÁRIO DE AGRICULTURA (BA)
“Não adianta só ter a melhor
amêndoa do mundo. Ao mercado
gourmet internacional não importa
só a qualidade, mas também a
sustentabilidade. E isso é uma
pirâmide, em que a ponta vai puxar
toda a base para cima ao trazer um
diferencial a mais de preço. É a nossa
grande aposta para salvar o cacau.”

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PESQUISA TESTARÁ QUALIDADE

Uma das apostas dos produtores baianos para incentivar a retomada de produção e a valorização do cacau é a obtenção do selo de indicação geográfica Cacau Cabruca Sul da Bahia. O projeto deve ser encaminhado até o fim do ano ao Ministério da Agricultura, que solicitara o título para o Instituto Nacional de Proteção Intelectual.

Segundo Adriana Reis, bióloga, especialista em qualidade de cacau no Instituto Cabruca, a ideia é proteger o patrimônio histórico-cultural e sua relação com a conservação do ambiente. “Com a vassoura de bruxa, muitos preferiram desmatar. Esse selo vai proteger a cabruca ao colocar valor no seu produto”, diz.

É o primeiro passo de um objetivo ousado – conquistar um selo de denominação de origem, que certifica produtos de locais específicos e reconhecidos por sua qualidade. Um exemplo no Brasil são os vinhos produzido no Vale dos Vinhedos, no Rio Grande do Sul.

A indicação geográfica é relativamente mais fácil de obter porque ela reconhece fama e origem, fatores que Jorge Amado e as novelas da Globo contribuíram para disseminar. A qualidade atestada pela denominação de origem já é um indicador mais difícil de provar.

Produtores que se dedicam a produzir cacau fino e chocolate gourmet a partir do sistema cabruca já conquistaram o público internacional e prêmios por suas amêndoas e usam a cabruca como elemento de marketing. Há também chocolateiros estrangeiros que preferem as sementes nacionais por sua relação com a proteção do ambiente, mas caberá à ciência bater o martelo.

Para isso, o Instituto Cabruca, em parceria com Universidade de Hamburgo (Alemanha), vai comparar a qualidade do cacau cabruca com o plantado a pleno sol. “A gente imagina que o cabruca tem mais qualidade, porque isso tem a ver com solo, com a ciclagem de nutrientes. A pleno sol não tem isso. Queremos provar que é diferente em termos de qualidade sensorial”, diz Adriana. E se não o resultado não for esse? “É um risco. Mas não pode ser… Ele é mesmo muito diferente”, diz, esperançosa.

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