“Mas por que você se interessa por mudanças climáticas?”

Giovana Girardi

24 Março 2014 | 11h04

O trajeto que fiz do Brasil para o Japão incluiu uma parada nos Estados Unidos e, junto com ela, um momento de reflexão sobre a dificuldade ainda enorme que é tocar as pessoas comuns sobre as mudanças climáticas, o rumo que a humanidade está dando ao planeta e os riscos a que basicamente todos estão sujeitos.

Ao chegar ao guichê da imigração no aeroporto de Atlanta, Georgia (EUA), expiquei que estava somente em trânsito, a caminho de Tóquio. O atendente, simpático, quis saber o que eu ia fazer aqui. Disse que estava indo a um evento sobre mudanças climáticas, o que deixou o homeme intrigado e desencadeou uma conversa meio sem pé nem cabeça.

“Mas por que você se interessa por mudanças climáticas?”, ele pergunta. Digo que sou jornalista de ambiente, e que, portanto, é um tema que eu cubro. Ele não se satisfaz: “Ok, mas o que vai acontecer lá?” Falo que um grupo de cientistas vai apresentar um relatório sobre os impactos das mudanças climáticas. E que vou lá escrever sobre isso.

A cara dele ainda era de descrença. Já estava imaginando que ia ser chamada numa salinha pra ter de explicar por que eu estava espalhando invencionices sobre o clima. “Então quer dizer que você está preocupada com o ambiente, essas coisas?”, pergunta ele. “Não só com o ambiente”, digo. “Mas com as pessoas também. Milhões poderão ser afetadas com inundações, aumento do nível do mar.” Pena que na hora não me ocorreu na hora falar do Sandy.

Ele então disse: “Hummm, interessante”. Com uma cara de quem pensa que o assunto da minha viagem era algo exótico. Praticamemte uma dessas ficções científicas que o Japão inventou no passado sobre monstros gerados pela poluição.

Os EUA estão passando por um inverno atípico, vá lá. Prato cheio para desacreditar do aquecimento global. Não é à toa que um grupo de cientistas americanos, ligados à Associação Americana para o Avanço da Ciências (AAAS), lançou na semana passada o relatório “O que sabemos“, que sintetiza para o público leigo o que 97% dos pesquisadores assumem como certeza:

Que o clima do mundo está mudando, que a responsabilidade por essas mudanças é humana e que quanto mais tempo levarmos para agir, maiores serão os custos e os riscos. Resta saber se o mocinho da imigração e outras milhões de pessoas como ele vão ler um relatório desses.

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