Lagartos dão pistas sobre impactos da mudança do clima na extinção de espécies

Lagartos dão pistas sobre impactos da mudança do clima na extinção de espécies

Pesquisa que rendeu prêmio à bióloga Fernanda Werneck investiga impacto do aquecimento global em espécies que vivem na Amazônia, no Cerrado e na área de transição entre os dois biomas

Giovana Girardi

21 Outubro 2016 | 13h23

Lagartos que vivem na região do arco do desmatamento no Mato Grosso, em uma região de transição entre Amazônia e Cerrado, estão ajudando a entender os impactos das mudanças climáticas no risco de extinção de espécies na região. De quebra, renderam à pesquisadora que os estuda um prêmio de R$ 50 mil.

A pesquisadora Fernanda Werneck em trabalho de campo. Crédito: Divulgação

A pesquisadora Fernanda Werneck em trabalho de campo. Crédito: Divulgação

A bióloga Fernanda de Pinho Werneck, pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa), especialista em estudos de biogeografia e evolução da biodiversidade neotropical, é uma das sete vencedoras da 11ª edição do prêmio “Para Mulheres na Ciência”, realizado pela L’Oreal em parceria com a Unesco e a Academia Brasileira de Ciência. A cerimônia de premiação ocorreu na noite desta quinta-feira, 20.

Fernanda analisa os lagartos, que são animais muito sensíveis às mudanças de temperatura e variam a sua interna conforme altera a do ambiente, para estimar riscos de extinção e capacidade adaptativa das espécies dos dois biomas, em um estudo que faz parte de um projeto global financiado pela Fundação Nacional de Ciências dos Estados Unidos (NSF).

O trabalho da herpetóloga (especialista em anfíbios e répteis) e de sua equipe, que envolve uma ampla experimentação em campo, testa os limites térmicos de três espécies de lagartos (Kentropyx calcarata, Iguana iguana e Ameiva ameiva) para descobrir quais são as temperaturas preferidas pelos bichos e a partir de qual eles já não conseguem mais fazer suas atividades.

Da espécie Ameiva ameiva, este lagarto é heliotérmico, ou seja, consegue regular sua temperatura através de estratégias comportamentais. Ocorre em ecossistemas abertos e é amplamente distribuído no Cerrado, na Amazônia e no ecótono. Crédito: Cecília Vieira

Da espécie Ameiva ameiva, este lagarto é heliotérmico, ou seja, consegue regular sua temperatura através de estratégias comportamentais. Ocorre em ecossistemas abertos e é amplamente distribuído no Cerrado, na Amazônia e no ecótono. Crédito: Cecília Vieira

“A partir daí criamos modelos para tentar prever os riscos de extinção no futuro. Se a temperatura num determinado local chegar ao ponto crítico, eles vão se retirar daquele ambiente, o que pode afetar a dinâmica das populações e gerar extinção local das espécies”, explica Fernanda. A expectativa é que isso também deve virar para a Amazônia, o Cerrado e a área de transição entre os dois biomas.

Modelo global. O grupo de Fernanda, que inclui pesquisadores da Universidade de Brasília e da Estadual do Mato Grosso, colabora com uma pesquisa mais ampla, iniciada em 2010, que escolheu os lagartos como organismos modelos para prever extinção em nível global. Na ocasião foram estudadas populações dos Estados Unidos e do México. “O resultado, extrapolado para o resto do mundo, não foi nada animador, previu uma extinção de 30% dos lagartos em todo o planeta para 2080”, conta a pesquisadora.

A pesquisa estimava um risco alto para a Amazônia e o Cerrado, mas não era validado com pesquisa de campo no Brasil. Daí entrou a equipe de Fernanda, que recebeu um financiamento da NSF em 2014 e iniciou o trabalho de campo no ano passado.

Havia uma expectativa, com base em estudos teóricos anteriores, de que haveria uma diferença de comportamento dos lagartos de zonas temperadas e os dos trópicos. Lá eles estão mais acostumados a uma amplitude térmica maior, mas aqui a temperatura varia pouco ao longo do ano, então se esperava que os lagartos tropicais sofreriam mais com uma mudança brusca de temperatura.

O estudo vem mostrando que algumas populações da Amazônia têm uma variabilidade maior do que se esperava. “Eles aguentam um limite máximo bem mais alto”, diz Fernanda.

Lagarto da espécie Kentropyx calcarata, também heliotérmico, ocorre em áreas florestais da Amazônia, Mata Atlântica e zonas de transição para outros biomas. Crédito: Guarino Colli

Lagarto da espécie Kentropyx calcarata, também heliotérmico, ocorre em áreas florestais da Amazônia, Mata Atlântica e zonas de transição para outros biomas. Crédito: Guarino Colli

Para descobrir isso, os pesquisadores capturaram alguns bichos, mediram a temperatura de atividade no campo, depois os levaram para um laboratório improvisado no meio da floresta mesmo para conduzir os experimentos.

Os animais foram, então, colocados em caixas com um gradiente térmico, com pistas que são quentes de um lado e frias de outro. Ali se observa qual é a temperatura preferencial dos animais.

Depois foi medida a sensitividade a mudanças: a partir de qual temperatura eles deixam de ter atividade motora, como capacidade de se virar quando é colocado com o ventre para cima ou de correr em uma esteira. “São movimentos importantes para medir o risco de extinção”, explica Fernanda.

Ela afirma que a pesquisa tem diversos objetivos: entender as relações históricas entre as populações da Amazônia, do Cerrado e do ecótono (a área de transição); verificar se há troca de indivíduos e genes para checar se o ecótono funciona como uma barreira, ou filtro para o transporte de espécies entre Amazônia e Cerrado ou como fonte geradora de diversidade.

“É importante responder a essas perguntas para pensar em projetos de conservação”, explica a pesquisadora.
Outro objetivo da pesquisa é verificar se já existe algum sinal nos genomas dessas populações que mostrem se elas estão sofrendo pressão evolutiva, a fim de poder verificar a capacidade de de adaptação delas. A ideia é usar parte do prêmio de R$ 50 mil para pagar parte dessas análises.

Conheça aqui todas as mulheres laureadas no prêmio deste ano.

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