IPCC mudou de opinião sobre biocombustíveis desde 2007

Giovana Girardi

28 Março 2014 | 07h53

A opinião do IPCC (o painel do clima da ONU) sobre o uso dos biocombustíveis como uma forma de lidar com as mudanças climáticas parece ter mudado entre um relatório e outro. Na versão atual aparece uma menção negativa ao seu uso – o que se tornou o ponto mais sensível para o Brasil na discussão do sumário da segunda parte do  relatório, que fala de impactos, vulnerabilidades e adaptação.

O relatório anterior (AR4), de 2007, no entando, tratava a alternativa aos combustíveis fósseis como bem-vinda. O tema havia sido tratado naquela ocasião dentro do terceiro grupo de trabalho, que trata de medidas de mitigação, ou seja, ações que podem reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

O texto dizia que os biocombustíveis poderiam “desempenhar um papel importante no combate às emissões de gases de efeito estufa” e chegava a identificá-los como “estratégia chave de mitigação” para o setor de transportes, “dependendo de seu modo de produção.”

A segunda parte do relatório atual (AR5), que está em fase final de discussão – representantes dos governos definem os termos do sumário para formuladores de políticas  – vem com um tom bem menos positivo.

“Aumentar o cultivo de plantações para bioenergia coloca riscos para ecossistemas e a biodiversidade, apesar de a contribuição da energia de biomassa para a mitigação reduIr os risos relacionados ao clima”, aponta, com “alto grau de confiança”, a versão preliminar do sumário.

No sumário para formuladores de políticas do relatório de 2007, o IPCC chegava a alertar que um “uso disseminado” de terras agriculturáveis para a produção de biomassa para energia “pode competir com outros usos da terra e pode ter impactos positivos e negativos e implicações para a segurança alimentar”.

Além disso, dizia que “plantações de bioenergia podem levar a recuperação de terrenos degradados, gerenciar o escoamento da água, reter carbono no solo e beneficiar as economias rurais, mas poderia competir com terra para produção de alimentos e pode ser negativo para a biodiversidade, se não for devidamente projetado”.

Há uma diferença visível de tom. Enquanto no AR5 o risco aparece categórico, no AR4 ficava mais nas possibilidades: pode, poderia.

Passaram-se sete anos de um relatório para o outro e muitas pesquisas foram publicadas nesse período levantando questionamentos sobre o avanço da produção de biocombustíveis. Ganhou peso uma área que investiga os chamados danos indiretos, ou seja, a plantação de uma cultura em uma região acabaria empurrando outra para áreas de floresta, que seriam desmatadas.

“Reduções de gases de efeito estufa a partir da produção de biocombustível e seu uso (comparado com o de combustíveis fósseis) pode compensada parcialmente ou inteiramente por décadas ou séculos por emissões de CO2 induzidas de desmatamento”, escrevem os autores do capítulo que fala de Riscos Emergentes e Vulnerabilidades-Chave.

E continuam, citando um cenário brasileiro: “No Brasil, é esperado que a expansão dos biocombustíveis incida sobre o Cerrado, a Amazônia e a Mata Atlântica – todos os três têm altos níveis de biodiversidade e de endemismo”.

Incompreensão. Esse dado vem de um estudo de 2010 feito pelo ecólogo da Unesp David Lapola, que disse achar que seu trabalho não foi muito bem compreendido pelo IPCC.

Ele trabalhou com modelagens explorando um cenário extremo de expansão da cana para produção de etanol e de soja para biocombustíveis. A cana no Sudeste e a soja no Mato Grosso.

“Para a cana consideramos que até 2020 ela se expandiria sobre áreas de pastagem, que é o que vem acontecendo. Aí imaginamos que a demanda de pecuária que estava alocada ali seria realocada para outra outras áreas, de Cerrado e Amazônia”, explica.

Até aí a menção do IPCC faz sentido, “mas para a Mata Atlantica não”, diz. “A cana não está ameaçando o bioma, que, pelo contrário, está começando a se recuperar. Os produtores têm feito projetos de reflorestamento.”

No caso do deslocamento para o Norte e Centro-Oeste, Lapola explica que considerou duas possibilidades: uma em que todo o gado paulista de fato fosse para lá num sistema de pecuária extensiva, com menos de um animal por hectare, pressionado por mais pastagem; e outra em que esse gado seria todo realocado em pastagens já existentes, com intensificação, não resultaria em desmatamento indireto.

“Acho que a verdade ficou entre esses dois extremos. De lá para cá de fato a produção de cana vem aumentando, mas o desmatamento está caindo”, diz ele, que publicou neste ano um estudo na revista Nature Climate Change mostrando a redução do desmatamento em todo o Brasil.

Lapola lembra que essa pressão dos biocombustíveis existe em outros países, como na Indonésia, de modo que a relação varia de caso a caso. “Sendo assim, na sentença que fala do meu estudo, deveriam ter usado um poderia, ou pode. De fato pode haver problema, mas a situação atual no Brasil tem mostrado o contrário.”

Para a delegação brasileira, esse ponto é crucial na discussão. Os negociadores entendem que se uma menção dessas passar pode acabar comprometendo o País em outras negociações internacionais – quando, para eles, o Brasil não está fazendo nada de errado. Amanhã deve ter briga em diplomatiquês.

Veja mais também: 

Infográfico: impactos das mudanças climáticas por regiões da Terra

De olho em dinheiro de adaptação, países travam debate

Um toque de delicadeza em um tema tão árido

‘Rádio Estadão’: Delegado climático pede união de todos os governos

Linha do tempo: Homem é o principal responsável por aquecer o Planeta