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IPCC destaca necessidades, mas não traz a conta

Giovana Girardi

31 março 2014 | 05:15

Em uma das versões do rascunho do “Sumário para Formuladores de Políticas” lançado hoje pelo Grupo de Trabalho 2 do IPCC, sobre impactos, adaptação e vulnerabilidade, foi proposto colocar que os custos estimados para a adaptação dos países em desenvolvimento poderia variar de US$ 4 bilhões a US$ 109 bilhões por ano de 2010 a 2050.

Mas a mensagem – de uma escala tão ampla que não quer dizer praticamente nada – não agradou nem os países em desenvolvimento e ela acabou sendo retirada da versão final. No lugar ficou a declaração de que há uma “lacuna entre as necessidades globais de adaptação e os fundos disponíveis para elas”.

Esse episódio mostra por um lado as dificuldades de se calcular quanto custaria implementar medidas de adaptação em todo o mundo. Por outro acaba mandando um sinal para as negociações cimáticas internacionais dentro da Convenção do Clima da ONU (UNFCC), justamente o fórum onde a discussão sobre quem vai pagar a conta das mudanças climáticas é feita.

O ecólogo Ian Noble, do Banco Mundial, e um dos autores do capítulo de Necessidades de Adaptação e Opções do novo relatório do IPCC, disse ao Estado que o tema foi um dos de maior debate na semana que passou, em que representantes dos países discutiram linha por linha o que foi proposto pelos cientistas para definir o que no final das contas é um documento internacional dos governos.

“Logo no início tínhamos bastante clareza de que há uma lacuna significativa entre o que é o dinheiro que necessário e o que está disponível. Mas na verdade não temos estimativas econômicas suficientes para dizer isso. Porque a gama de custos estimados vai de US$ 4 bilhões a US$ 109 bilhões. O que soa meio ridículo.”

O primeiro valor, segundo ele, foi estimado numa conta meio rápida para o Banco Mundial. Depois começaram a ser feitos modelos econômicos. “Achávamos que os países em desenvolvimento iam querer que houvesse uma grande ênfase na lacuna e que os desenvolvidos não iam querer. No final todo mundo concordou que era necessário dizer que existe essa lacuna.
Há evidências dela, mas ainda não conseguimos estimar o seu tamanho.”

Um dos problemas, explica ele, de fazer esse tipo de estimativa do custo da daptação é que depende das questões que se levam em conta.

“Por exemplo, estou trabalhando na avaliação de um distrito no Zâmbia em relação aos ricos de inundações de um rio. Há algumas questões: estamos tentando conseguir uma redução dos impactos da inundação para que os meios de vida daquelas populações se mantenham no futuro do modo como elas são hoje; ou estamos tentando melhorar os seus modos de vida, porque na verdade eles são bem pobres? Nesse caso, quanto disso é adaptação e quanto é desenvolvimento? É uma questão que não sabemos responder”, afirma.

Outro ponto, lembra ele, é a próprio desejo daquelas pessoas de continuar vivendo como vivem hoje ou não. Se um estudo está considerando um tempo maior para a adaptação – por exemplo, até 2050 –, então há que se pensar nos desejos daquela população daquele momento.

“Independentemente da mudança climática, talvez as condições mudem porque muita crianças hoje estão recebendo educação, então talvez já não estejam vivendo mais daquela maneira em vilas ou tenham melhores maneiras de se comunicar, então tudo isso afeta na hora de fazer um cálculo mais preciso.”