‘Floresta digital’ abre espaço para bioprospecção em larga escala

‘Floresta digital’ abre espaço para bioprospecção em larga escala

Com metodologia simplificada, pesquisadores conseguiram sequenciar o genoma de 50 espécies de plantas em apenas seis meses, agilizando processo de investigação por moléculas de interesse comercial

Giovana Girardi

15 Agosto 2016 | 03h30

Reserva teve 50 espécies sequenciadas com método simplificado. Crédito: Luciano Candisani

Reserva teve 50 espécies sequenciadas com método simplificado. Crédito: Luciano Candisani

Um dos argumentos mais usados para se preservar a biodiversidade – além do valor dela por si só e dos serviços que ela presta – é que nas matas do País podem estar escondidas riquezas na forma de moléculas com potencial para virar remédios, cosméticos ou outros produtos de interesse comercial. Mas até hoje isso pouco vingou. Em parte porque a pesquisa é mesmo complexa, o acesso é difícil e também porque ainda estamos atrasados em um ponto muito básico: mapear o que está nas nossas florestas.

Um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro está inovando esse processo. Eles adotaram um método de sequenciamento de genoma simplificado para agilizar a investigação da biodiversidade. O trabalho piloto começou com o mapeamento de 50 espécies de plantas da Mata Atlântica encontradas na reserva Legado das Águas, no Vale do Ribeira, em São Paulo.

Maior reserva privada de Mata Atlântica do Brasil, a área foi adquirida pela Votorantim nos anos 1950 para a proteção dos corpos d’água que alimentam sete hidrelétricas da empresa que, por sua vez, geram energia para abastecer a indústria. Em 2012, a empresa resolveu começar a investigar que outros potenciais poderiam haver ali e se era possível comprovar a máxima de que árvore em pé vale mais do que derrubada.

Foi feito um inventário inicial das espécies arbóreas e uma parte delas virou alvo do mapeamento genético conduzido pela equipe da UFRJ. Com esse esforço inicial, os pesquisadores já declaram ter o maior banco de dados genéticos da Mata Atlântica.

“É um primeiro passo para explorar a biodiversidade brasileira de modo sustentável”, afirma o biólogo Mauro Rebelo, coordenador do projeto. “A dificuldade para acessar a biodiversidade, em termos científicos, é grande. Analisar quimicamente tem custo alto, e o retorno é muito incerto. Nós buscamos uma metodologia para fazer esse acesso em larga escala”, diz.

A ideia foi sequenciar somente a parte do genoma que pode ter algum interesse comercial. Por isso, os pesquisadores focaram apenas nos genes, que codificam proteínas, deixando de fora enormes trechos de repetição que existem no DNA.

Mais rápido. A metodologia é rápida – em seis meses, as 50 espécies foram decifradas – e rápida. Nos cálculos de Rebelo, pode custar 20 vezes menos que um sequenciamento normal de genoma. O plano, diz o pesquisador, é ampliar e mapear tudo que existe na reserva de 31 mil hectares, onde já foram identificadas pelo menos 700 espécies de árvores.

O sonho de Rebelo é ainda maior: quem sabe um dia alcançar as 20 mil espécies vegetais que se estima existirem na Mata Atlântica.

Tendo esse material como ponto de partida, fica mais fácil para cientistas investigarem moléculas com potencial interesse. “O legal é transformar uma floresta física em floresta digital para facilitar o acesso de pesquisadores, empreendedores”, comenta Rebelo.

Segundo David Canassa, gerente de Sustentabilidade da Votorantim, quatro substâncias, derivadas dessa pesquisa, já estão sendo investigadas nesse sentido.

O banco de dados genético obtido é de propriedade da empresa. Mas a ideia, explica Canassa, é fazer parcerias e compartilhar os dados com outros pesquisadores e empresas. Até porque, se a quantidade de genomas for ampliada como se espera, serão necessários muitos braços para analisar tudo.

Ainda não está definida como será feito o uso de todo o banco, mas Canassa disse que a empresa não descarta torná-lo público.