Fazenda da Toca faz da agrofloresta um negócio rentável

Fazenda da Toca faz da agrofloresta um negócio rentável

Projeto no interior de São Paulo que integra agricultura orgânica com florestas aumenta produtividade e melhora o clima; estudos analisam forma de replicar experiências como essas para ajudar Brasil a cumprir metas de redução das emissões

Giovana Girardi

04 Junho 2016 | 16h31

Um dos compromissos assumidos pelo Brasil no âmbito do Acordo de Paris para a redução das emissões de gases de efeito estufa é a implantação de 5 milhões de hectares de integração lavoura-pecuária-floresta.

Esse tipo de iniciativa – apesar de contar com uma linha de financiamento específica para ele: o plano Agricultura de Baixo Carbono (ABC) – é ainda nova e localizada no Brasil. Uma dos desafios para se atingir a meta é buscar formas de escalonar essas experiências.

Para ajudar nessa tarefa, está sendo gestado um projeto de empresas e organizações da sociedade civil chamado Verena que está em busca exatamente de casos no Brasil que possam servir como embriões de um novo modelo de economia florestal. Um dos que está na mira é o da Fazenda da Toca, do empresário Pedro Paulo Diniz, que está fazendo a transição da agricultura orgânica para sistemas agroflorestais.

Pedro Paulo Diniz caminha ao lado de linhas com cultivos mistos. Alex Silva / Estadão

Pedro Paulo Diniz caminha ao lado de linhas com cultivos mistos. Alex Silva / Estadão

A Toca não tem pecuária, mas está integrando, num primeiro momento, o cultivo do carro chefe da fazenda – as frutas voltadas para produção de sucos – com banana e eucalipto. A ideia, mais para frente, é que outras espécies arbóreas sejam incorporadas e que a maioria seja de espécies nativas.

A premissa é que uma maior variedade de plantas consorciadas ajuda a reduzir doenças da agricultura e aumenta a produtividade, uma vez que protege o solo. Dos 2.300 hectares da fazenda, 33% são protegidos com vegetação nativa nos formatos de Reserva Legal e Área de Preservação Permanente. Da área cultivada, 50 hectares já foram convertidos para a agrofloresta.

As plantas são cultivadas num sistema que tenta imitar o funcionamento da natureza, com extratos de tamanho e tempos de crescimento diferente, de modo que não haja competição e elas possam se ajudar, explica o especialista em solos Everton Lemos.

À sombra. Espécies de crescimento rápido, como o eucalipto, vem primeiro e já começa a contribuir com o material orgânico que cai no solo e ajuda a manter a sua umidade. Depois vem a banana, que fornece sombra para a laranja, por exemplo. “Laranjeiras quando ocorrer na natureza nunca estão a pleno sol, como ocorre nas monoculturas, mas à sombra com outras espécies”, explica Lemos.

Plantio consorciado une laranja, banana e eucalipto em leiras ricas em matéria orgânica. Alex Silva / Estadão

Plantio consorciado une laranja, banana e eucalipto em leiras ricas em matéria orgânica. Alex Silva / Estadão

As árvores são postas em linhas, sobre as chamadas leiras, que são caminhas de material orgânico proveniente do capim que é plantado entre as leiras, e a biomassa (folhas, galhos, poda) das próprias árvores. Isso deixa o solo extremamente rico, o que contribui para o aumento da produtividade e reduz custos com insumos ou enriquecimento do solo. E ainda é possível ganhar depois com a madeira e com a banana.

“O sistema agroflorestal otimiza o orgânico. É ganha-ganha. É bom para quem produz, para quem consome e para o planeta”, afirma Pedro Paulo Diniz. Ele explica que o grande desafio agora é estruturar o sistema para que ele possa ser adotado em grande escala.

“No fundo são coisas simples, observamos soluções que a natureza usa. O multi-consórcio tem potencial para dar eficiência. Estamos gerando complexidade para não ter complicações depois”, defende.

Dois anos de plantio consorciado sobre leira cheia de material orgânico em área de pastagem degradada já mostram resultado. O solo está mais rico, na comparação com área sem o tratamento. Alex Silva/Estadão

Dois anos de plantio consorciado sobre leira cheia de material orgânico em área de pastagem degradada já mostram resultado. O solo está mais rico, na comparação com área sem o tratamento. Alex Silva/Estadão

Escala. Para isso ele está desenvolvendo tanto maquinários específicos para lidar com a agrofloresta, que é mais delicada, quanto o que Diniz chama de “tecnologia social”. “Para um sistema desses funcionar o ideal é ter parcerias. Por exemplo, a banana é eficiente, cresce rápido, é produtiva, mas precisa de muita interação, muito manejo. E ter gente o tempo todo para fazer isso é caro. Então temos um parceiro agrícola que cuida da banana. Se isso ocorre em outros lugares, fica mais fácil escalar”, afirma.

Nesse esquema, ele acredita que seria possível também cultivar outros alimentos no multi-consórcio, como mandioca, inhame, batata doce.

O modelo começa a dar frutos. Um maquinário mais leve desenvolvido para andar nas entrelinhas e fazer a poda dos eucaliptos sem compactar o solo e produzir leiras de modo mais rápido está sendo fornecido para uma cooperativa de assentamentos rurais em Ribeirão Preto.

Por meio do Verena, está se avaliando desenvolver um sistema de agrofloresta em uma fazenda de 40 mil hectares na Bahia. Uma outra parceria está levando o modelo de agrofloresta para 3 mil famílias, cada uma com um lote de 100 hectares, que fazem parte do Programa de Assentamento Sustentável (PAS) do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) no Pará. Se na Toca o trabalho com árvores nativas ainda é só um plano, lá é para garantir a floresta amazônica em pé.

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