Emissões de gases de efeito estufa do Brasil sobem 3,5% em 2015

Emissões de gases de efeito estufa do Brasil sobem 3,5% em 2015

Apesar da crise econômica, que em geral é associada a queda de emissões, o Brasil lançou para a atmosfera 1,927 bilhão de toneladas CO2 equivalente no ano passado, contra 1,861 bilhão de toneladas em 2014. A alta ocorreu pelo aumento da taxa de desmatamento na Amazônia

Giovana Girardi

26 Outubro 2016 | 12h04

(Atualizada às 20h)

O aumento da taxa de desmatamento na Amazônia no ano passado levou a uma alta de 3,5% nas emissões de gases de efeito estufa do Brasil, na comparação com 2014. O dado foi divulgado nesta quarta-feira (26) pelo Sistema de Estimativa de Emissão de Gases de Efeito Estufa (Seeg), um monitoramento paralelo ao oficial feito pelo Observatório do Clima.

Desmatamento voltou a crescer entre grandes polígonos na Amazônia. Crédito: Tiago Queiroz / Estadão

Desmatamento voltou a crescer entre grandes polígonos na Amazônia. Crédito: Tiago Queiroz / Estadão

Apesar da crise econômica, que em geral é associada à queda de emissões, o Brasil lançou para a atmosfera 1,927 bilhão de toneladas CO2 equivalente (a soma de todos os gases de efeito estufa convertidos em dióxido de carbono) no ano passado, contra 1,861 bilhão de toneladas em 2014. Os números são de emissões brutas, sem descontar as remoções por florestas.


A crise teve reflexo nas emissões do setor de energia, que apresentaram pela primeira vez desde 2009 uma queda (5,3% no ano passado), mas nenhum impacto no desmatamento. Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a taxa anual de perda da Amazônia, entre agosto de 2014 e julho de 2015, cresceu 24% em relação ao período anterior.

O setor de mudança do uso do solo foi historicamente a principal fonte de gases de efeito estufa no Brasil, mas a queda do desmatamento de cerca de 80% entre 2004 e 2012 tinha sido o principal motivo pelo qual o País diminui sua contribuição com o aquecimento global. Segundo o levantamento, agora, porém, houve uma alta de 12% das emissões por mudança do uso da terra, considerando todos os biomas.

O engenheiro florestal Tasso Azevedo, que coordena o Seeg, afirma que as flutuações na taxa de desmatamento que têm ocorrido nos últimos anos têm mantido as emissões quase estáveis (veja no quadro abaixo).

“De 2005 a 2015, a queda de emissões totais do Brasil foi de 39%, mas se fizermos um corte, vemos que isso se concentra de 2005 a 2010 (queda de 42,1%). De 2010 para 2015 ficou praticamente estável (2% de redução no período). Na verdade só tivemos uma redução grande num momento muito curto, quando houve a principal redução no desmatamento. Nos outros setores as emissões continuaram crescendo sempre. As de energia, em dez anos, cresceram 44,7%. No mundo foi de 10%”, disse Azevedo em coletiva à imprensa.

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Excluindo a fatia de mudanças no uso da terra, as emissões no Brasil cresceram 24% nos últimos dez anos, movimento parecido com o de outros países em desenvolvimento.

Contramão de Paris. Para Carlos Rittl, secretário executivo do Observatório do Clima, os números de emissões revelados pelo levantamento fazem até parecer que nada aconteceu no Brasil recentemente em termos de combate ao aquecimento global.

Ele lembrou que o País foi a terceira grande economia mundial a ratificar o Acordo de Paris, depois de Estados Unidos e China. Mas que as ações que estão sendo tomadas internamente vão na contramão desse compromisso.

Rittl citou como exemplo a alta do desmatamento (contrária à meta assumida de zerá-lo até 2030), e relativizou a queda das emissões de energia. “Por causa da recessão econômica, as emissões do setor de energia caíram. Mas o que vai acontecer se mantivermos o conjunto de políticas públicas atuais quando a gente voltar a ter taxas de crescimento econômico razoáveis, que deve acontecer nos próximos anos?”, questionou.

“A gente precisa tirar o Acordo de Paris do papel e mudar o rumo da nossa economia. Já que estamos em momento de grandes ajustes, vamos ajustar a economia para que a retomada do crescimento nos leve no rumo da descarbonização”, complementou.

O ambientalista lembrou que apenas 1,6% do crédito agrícola em 2015 e 2016 foi investido no plano ABC (para atividades agrícolas de baixo carbono) e que o plano mais recente de expansão de energia, o PDE 2020-2024, ainda traz um aumento de projeção de investimento em combustíveis fósseis.

“Ainda se acha que a grande solução para o País é o pré-sal. E além disso a gente continua desmatando, por mais que se saiba que a quantidade de pastagem degradada que existe no Brasil é mais que suficiente para permitir que a gente tenha um aumento da produção de alimentos sem precisar cortar qualquer árvore. Por que tudo isso? Porque a gente ainda não tornou realidade o que foi celebrado em Paris”, disse.