Emissões de energia são as que mais sobem no País

Emissões de energia são as que mais sobem no País

Giovana Girardi

07 Novembro 2013 | 00h01

Usina termelétrica Luís Carlos Prestes, da Petrobras, em Três Lagoas (MS). Crédito: Agência Petrobras

Apesar de a queda dos níveis de desmatamento da Amazônia ter promovido uma redução nas emissões totais de gases de efeito estufa do Brasil, a participação de outros setores da economia, principalmente o de energia, está crescendo sem muito controle e já acende o sinal vermelho sobre os riscos de as emissões nacionais voltarem a crescer.

O alerta será feito nesta quinta-feira pelo Observatório do Clima, grupo de organizações da sociedade civil, durante o lançamento do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (Seeg). Trata-se de um levantamento paralelo ao feito pelo governo federal e bem mais atualizado. O País já divulgou dois inventários de emissões – relativos a 1994 e a 2005 – e, mais recentemente, uma estimativa de quanto foi emitido em 2010.

A nova metodologia, coordenada pelo engenheiro florestal Tasso Azevedo, traz cálculos de 1990 até o ano passado. Em geral, ela apresenta a mesma tendência de queda total vista pelo governo. Mas, além de mais atualizada, o que permite reagir mais rapidamente a um aumento das emissões de um dado setor, também possibilita avaliar em detalhes como cada setor contribui com o todo.

O levantamento mostra que de 1990 a 2012, as emissões do setor de energia no País passaram de 193,1 milhões de toneladas de carbono equivalente para 436,7 milhões de t CO2e, um crescimento de 126%. Só entre 2010 e 2012 o crescimento foi de 13,4%.

Mas investigando esse aumento nas entrelinhas, é possível ver, por exemplo, que o País vem sujando sua matriz energética. De acordo com os dados do Seeg, as emissões provocadas pelo consumo de gás natural em termelétricas cresceu 64% de 2009 a 2012. Já o aumento do consumo de gasolina resultou em um crescimento de 65% das emissões por essa fonte de combustível.

“Isso tem a ver com uma política de subsídios a gasolina que impacta diretamente o álcool. Desse modo, de 2009 para cá o consumo de etanol caiu 30%, mas da gasolina subiu 34%. Captou tudo o que é consumo novo”, afirma Azevedo.

São números que tendem a ficar mascarados pela noção amplamente difundida, inclusive pelo governo, de que a matriz brasileira é limpa, visto que 84% da energia elétrica é proveniente de fontes hídricas. “Mas isso é só a energia elétrica. Não conta outros consumos de energia”, ressalta.

Ele lembra que naqueles três anos a parcela de fontes renováveis na matriz caiu de 45% para 42%. “O Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) prevê que 72% dos investimentos em energia até 2022 vão para os combustíveis fósseis, em grande parte por conta do pré-sal”, afirma Carlos Rittl, secretário executivo do Observatório do Clima.

Agropecuária. O setor econômico que mais contribui com as emissões nacionais ainda é, porém, a agropecuária. Os pesquisadores fizeram um exercício de calcular não somente as emissões da produção em si – como as causadas pela remoção do solo, a fermentação entérica dos bovinos e o uso de fertilizantes –, como também as colaterais.

São incluídas aí as provenientes do desmatamento para abrir áreas produtivas, do uso de energia (como o transporte dos produtos) e dos resíduos. Nesse cálculo, a responsabilidade do setor sobe de 30% para 60% das emissões totais do Brasil.

A descrição da metodologia e toda a base de dados obtida neste levantamento está disponível no portal do Seeg. A expectativa é que a estimativa de emissões seja atualizada anualmente.