Apesar de em queda, emissões do Brasil no passado foram maiores que o imaginado

Apesar de em queda, emissões do Brasil no passado foram maiores que o imaginado

É o que mostra o novo inventário nacional de emissões de CO2, entregue sem alarde à ONU. Em 5 anos houve queda de 50%, mas os valores de 2005, ano base das nossas metas de redução, foram 30% maior do que se imaginava antes

Giovana Girardi

06 Maio 2016 | 08h00

Novo cálculo considera que as emissões de gás carbônico por desmatamento são maiores do que se imaginava antes. Crédito: TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

Novo cálculo considera que as emissões de gás carbônico por desmatamento são maiores do que se imaginava antes. Crédito: TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

O Brasil submeteu à Convenção do Clima das Nações Unidas, sem nenhum alarde, em abril, o novo inventário de gases de efeito estufa do Brasil. O levantamento, referente às emissões de 2010, mostra que o total de gás carbônico (CO2) lançado na atmosfera pelo País caiu mais de 50% entre 2005 (ano do inventário anterior) e 2010, passando de 2,73 bilhões de toneladas de gás carbônico (CO2) para 1,27 bilhões de toneladas. Mas mostra também que o tamanho da contribuição nacional para o aquecimento global naquela época foi maior do que o esperado anteriormente.

O novo inventário, obtido com exclusividade pelo Estado, foi elaborado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) com base em uma metodologia científica mais aprimorada, que reviu as emissões nacionais passadas. Com isso se observou que em 2005, quando o desmatamento no Brasil estava no auge – até então nossa principal fonte de CO2 –, as emissões foram 30% maior que o cálculo anterior. Em vez das 2,1 bilhões de toneladas que eram contabilizadas no segundo inventário, foram emitidas 2,73 bilhões de toneladas de CO2 naquele ano.

Isso é importante porque 2005 foi o ano base usado pelo governo federal para propor as metas de redução das emissões de gases de efeito estufa (conhecida como INDC) que foram apresentadas como a contribuição nacional ao Acordo de Paris. Fechado em dezembro por 195 países do mundo, o acordo visa o combate mundial às mudanças climáticas provocadas pela emissão sem precedentes de gases de efeito estufa.

O governo brasileiro prometeu reduzir as emissões em 37% até 2025 e 43% até 2030, com base nos valores de 2005. Mas na ocasião, consideravam-se os números presentes no inventário anterior. Se somente a porcentagem for mantida em cima do novo valor, as emissões em 2030 serão até maiores que as atuais, sem ganho para o clima.

Impacto nas metas. Para o ambientalista Carlos Rittl, secretário executivo do Observatório do Clima, a meta brasileira tem de ser ajustada para adequar os novos números. “A contribuição nacional para o problema (do aquecimento global) é maior do que se achava que era. Isso impõe mais responsabilidade para o Brasil daqui para frente. É preciso fazer um ajuste na meta para oferecer essa transparência”, diz.

Ele sugere também que o governo deixe claro que a meta não é só a porcentagem, mas o número absoluto que foi apresentado no anexo do documento entregue pelo Brasil. Ali consta que o plano é ter uma emissão de 1,3 bilhão de toneladas de CO2 em 2025 e 1,16 bilhão de toneladas em 2030. “Só assim vai evitar um constrangimento internacional”, complementa.

De acordo com Márcio Rojas Cruz, coordenador geral de mudanças globais de clima do MCTI, a revisão de dados é rotineira nos processos de inventário (isso também ocorreu do primeiro, de 94, para o segundo, de 2005) e se deu porque o conhecimento científico disponível atualmente era melhor que o existente na época em que foi feito o inventário anterior (lançado em 2010).

A revisão dos números de 2005 para cima, explica Cruz, ocorreu principalmente porque a ciência descobriu que ações de mudança do uso da terra (jargão técnico para desmatamento) emitem mais CO2 do que se imaginava anteriormente. O inventário considera as chamadas emissões líquidas do País – ou seja, desconta a absorção de carbono feita por florestas protegidas no formato de Unidades de Conservação e Terras Indígenas. Para o inventário de 2010, isso exclui cerca de 390 milhões de toneladas de CO2.

Ele não opinou sobre a meta para o Acordo de Paris, mas disse que os novos números mostram que o Brasil, nos últimos anos, teve um trabalho ainda maior para reduzir suas emissões. “Acho que a leitura que podemos fazer é que, se os números de 2010 são os que vimos agora e se os números para 2005 foram mais altos que o esperado, podemos dizer que houve um esforço ainda maior do País nos últimos anos”, disse ao Estado.

Em tempo. Depois de o Estado ter entrado em contato com o MCTI para fazer esta reportagem, a assessoria de imprensa do órgão convocou para a tarde desta sexta, às 15h, uma coletiva para apresentar o relatório.