Em vez de construir infraestrutura, que tal usar a própria natureza como base para a adaptação

Giovana Girardi

31 Março 2014 | 05h09

Capa do novo relatório do IPCC destaca uma iniciativa de plantio de mangues como adaptação às mudanças do clima. Divulgação

Além das recomendações usuais para que os países invistam mais em infraestrutura para aumentar sua resiliência às mudanças climáticas, no novo relatório do IPCC ganhou espaço uma alternativa mais barata que pode, em alguns locais, conseguir efeitos parecidos: a adaptação baseada em ecossistemas.

O tema aparece em maior ou menor profundidade em cerca de metade dos capítulos, e teve destaque espacial no capítulo regional de América Central e do Sul, onde técnicas como criação de áreas protegidas, acordos para conservação e manejos comunitários de áreas naturais estão sendo testadas.

Mas o que isso tem a ver com adaptação? De acordo com o ecológo Fabio Scarano, da Conservação Internacional, e um dos autores do capítulo, a ideia é fortalecer serviços ecossistêmicos que são fundamentais. Um ambiente bem preservado tem a capacidade de prover um clima estável, o fornecimento de água, a presença de polinizadores. “Como se fosse uma infraestrutura da própria natureza”, diz. 


Como premissa, está a conservação da natureza aliada ao incentivo do seu uso sustentável – a fim também de evitar a pobreza, que é um dos principais motores da vulnerabilidade de populações. 

“Normalmente quando se fala em adaptação se pensa na construção de grandes estruturas, como um dique, por exemplo, para evitar uma inundação. O que em geral é  muito caro, mas em uma adaptação baseada em ecossitemas, conservar a natureza e usá-la bem é uma forma de diminuir a vulnerabilidade das pessoas às mudanças climáticas”, afirma.

Ele cita como exemplo uma região costeira em que o mangue tenha sido degradado. “Esse ecossistema funciona como uma barreira. Mas sem ele, num cenário de ressacas mais fortes, elevação do nível do mar, a costa vai ficar mais vulnerável, será necessário construir diques. Mas se mantem o mangue em pé e se oferece um auxílio para que as pessoas possam ter uma economia básica desse mangue, com técnicas mais sustenáveis, e elas recebam para mantê-lo assim, vai ser mais barato do que depois ter de fazer um dique”, explica.

Segundo o pesquisador, para ser mais resiliente é importante acabar com a pobreza e preservar a natureza. “Se for possível ter os dois, a gente consengue o tão falado desenvolvimeto sustentável”, opina.