Economista ligado a ruralistas deve assumir direção da Fundação Florestal

O economista Eduardo Soares de Camargo, que já foi consultor e diretor da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e diretor-executivo da Sociedade Rural Brasileira (SRB), foi indicado pelo Conselho Curador da Fundação Florestal para assumir o cargo. Camargo confirmou a indicação e disse que vai priorizar as concessões das unidades de conservação para a iniciativa privada

Giovana Girardi

15 Outubro 2016 | 12h58

Mais um ruralista deve assumir na próxima semana um cargo na Secretaria de Meio Ambiente. O economista Eduardo Soares de Camargo, que já foi consultor e diretor da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e diretor-executivo da Sociedade Rural Brasileira (SRB), foi indicado pelo Conselho Curador da Fundação Florestal para assumir o cargo de diretor executivo do órgão.

O nome, que havia sido sugerido pelo secretário da pasta, Ricardo Salles, só precisa ser chancelado agora pelo governador Geraldo Alckmin.

Esta será a quarta pessoa a assumir o cargo nos últimos dois anos. No final da semana passada, o então diretor, Paulo Almeida, havia pedido demissão do cargo. Na segunda-feira, em entrevista ao Estado, Salles disse que ele era um bom profissional, mas não um gestor, característica que Salles diz estar em falta nas cadeiras da secretaria.

“A Fundação Florestal precisa de um gestor, ele é professor e entendeu que não teria o perfil que estamos procurando”, afirmou o secretário. Almeida foi procurado pelo Estado, mas disse apenas que não havia nada oficial ainda e que preferia não se pronunciar. Formado em direito, Almeida é professor do Programa de Pós graduação em Sustentabilidade e no curso de Bacharelado em Gestão Ambiental na USP Leste.


Em entrevista ao Estado no início da tarde deste sábado, Camargo confirmou o convite e disse que espera somente os trâmites burocráticos para assumir. Ele disse que conhece Salles há “muitos anos”. O secretário foi diretor jurídico da SRB no período em que Camargo era o diretor executivo da instituição.

Disse que no cargo, por determinação de Salles, vai buscar incrementar parcerias e desenvolver a fundação. “Hoje há um viés muito ideológico e embora tenhamos muito técnicos de altíssima competência, o secretário quer uma articulação maior, quer desenvolver, quer tirar a fundação da zona de conforto, que às vezes mais trava mais do que empreende. Ele quer que os técnicos opinem, mas façam acontecer.”

Por parcerias ele se referiu aos processos de concessão das unidades de conservação para a iniciativa privada.”Vamos ouvir a parte técnica, respeitar as regras, mas, no que for possível fazer parcerias, vamos fazer.”

Questionado sobre qual sua experiência com ambiente e se não haveria conflito de interesses com o fato de ele ter trabalhado por cerca de 13 anos com ruralistas, disse que terá o desafio de “mostrar para a sociedade que os maiores defensores do ambiente são os produtores rurais”. “Essa imagem antiga de desmatador, explorador, a sociedade resiste em entender que mudou, mas acho que temos de mostrar o trabalho”, afirmou.

Procurada pela reportagem, a Secretaria de Meio Ambiente disse que ainda não houve escolha pelo governador. Na segunda, porém, Salles já tinha sinalizado que poderia trazer alguém do setor. Na entrevista, afirmou que queria alguém que “tenha uma visão de gestão de floresta, de campo, que tenha alguma experiência no setor privado, não só acadêmico”. O ideal, disse, é que seria alguém de associação de classe, “com noção de cobrança da sociedade, de que existe premência do tempo, de restrições orçamentárias, que não são questões filosóficas, mas do dia a dia.”

Outras mudanças. Esta é a terceira pessoa ligado a ruralistas que assume cargos ambientais desde que Salles assumiu a secretaria. Na semana passada, houve mudanças também na Câmara de Compensação Ambiental, que gera os recursos pagos por empreendimentos como forma de compensar o impacto ambiental de suas obras. O dinheiro tem de, obrigatoriamente ser usado em unidades de conservação.

A troca dos representantes da sociedade civil foi a que mais chamou atenção. No lugar do pesquisador Ricardo Rodrigues e da ambientalista Ana Luisa da Riva, foram colocados dois ruralistas: o advogado Francisco de Godoy Bueno, vice-presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB) e amigo pessoal do novo secretário de Meio Ambiente, e o agrônomo Evaristo de Miranda, da Embrapa.

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